'Tentei gritar meus ideais para o mundo; minha boca fechou, meu corpo assumiu essa função'

29/10/2019

Professor de dança da Maloca dos Brilhantes, em Pacajus, no Ceará, Lincon Augusto foi à Suíça participar de treinamento

"A dança em si é mais do que um simples movimento. É uma expressão da nossa arte. Tentei gritar meus ideais para o mundo. Minha boca fechou, meu corpo assumiu essa função". É com tal intensidade que Lincon Augusto se refere à sua maior paixão: a dança. Foi numa aula do ensino médio que ele a conheceu. Atraído por esta forma de expressão artística, treinou e se dedicou tanto que, com apenas 21 anos, já pode dizer que saiu do país pela primeira vez para aprender mais sobre o que tanto ama.

Foram três meses na Suíça, em uma realidade totalmente diferente. "Isso me fez refletir bastante, pensar muita coisa, questionar tudo. Todo mundo lá tem dinheiro, mas todos pensam muito uns nos outros, no meio ambiente, no ecossistema. Senti muito esse impacto", conta Lincon, que treinava das 9h da manhã às 10h da noite, todos os dias.

Agora de volta ao Brasil, toda segunda, quarta e sexta, Lincon Augusto está no projeto Escola Livre de Cultura Maloca das Artes – Maloca dos Brilhante, projeto do CIEDS em Pacajus, no Ceará. Por lá, ele ministra aulas de hip hop e de ritmos. Tem desde alunos mais jovens e adolescentes, até adultos e pessoas da terceira idade. Aos pupilos, busca passar um pouco do que absorveu na Suíça.

"Aprendi muita coisa técnica da dança. Mas, junto a toda essa experiência, aprendi também o respeito pela dança, de encarar a coisa como profissional. Tento sempre trazer isso para os meus alunos. De treinar não só por técnica, por obrigação, mas pela essência da própria dança, que é a expressão", explica o professor, que também busca ensinar um pouco de inglês aos alunos, entre um passo e outro de dança.

"Desde a minha infância, nada me fazia imaginar que um dia eu estaria nesse mundo. Meu perfil, o mundo em que eu vivia. Conheci a dança através de um projeto escolar, um festival cultural. Fiz uma coreografia de danças urbanas. Senti uma coisa que nunca havia sentido: a arte manifestada na dança. Vi que era um mundo diferente", lembra Lincon.

Apesar do encantamento, ele encarou a novidade com cautela. Não entendia direito como poderia aplicar, na prática, sua arte enquanto projeto de carreira. Chegou a iniciar uma graduação em computação na Universidade Federal do Ceará, mas logo desistiu, com a certeza de que deveria seguir os caminhos mais sinuosos do movimento artístico. "Foi assim que entendi mesmo o significado da dança para mim e a assumi realmente", conta.

A partir daí, foi treino, treino, treino: de 5 a 8 horas por dia. Entrou numa companhia de dança de Fortaleza, participou de competições e ganhou prêmios. "Nada foi sorte", garante ele. Durante um workshop, chamou a atenção de um professor gringo.

"Ele gostava de mim, queria me levar para treinar com ele, mas eu não tinha condições. Decidi que iria lutar para isso. Entrei em trabalhos secundários para juntar grana. Nem se ele não me quisesse mais, eu ainda iria. Mesmo que ele dissesse que não, eu diria que sim", lembra o dançarino resiliente, entre uma risada e outra.

Para ele, dança é um estilo de vida, mais do que apenas uma profissão. Ela gera consciência corporal, muda o estado de espírito e a mente e proporciona autoconhecimento. "Preciso da dança para viver."

Autor: Bruna Santamarina