Somos marés cheias na favela

11/09/2019

O "Slam Maré Cheia", criado por Matheus de Araujo, propicia que outros 200 moradores do Complexo da Maré conquistem seus espaços pela cidade

“Vários lugares no Rio são aterros geográficos. As ondas do mar chegavam em determinados lugares que hoje não chegam, porque existem os aterros. A metáfora é essa. O povo negro e favelado deveria chegar em determinados lugares, mas, por conta dos aterros, como o racismo, por exemplo, tem que ser duas, três mil vezes maior e melhor. Para conseguir chegar, diante desses aterros, o negro tem que estar com maré cheia.

Cada um de nós somos marés cheias na favela. Naturalmente, a gente deveria chegar em lugares que são nossos por direito, mas a gente não consegue.”

É assim que Matheus de Araujo, nascido e criado na favela Rubens Vaz, no Complexo da Maré, explica o trabalho que faz com sua poesia, caminho que utiliza para resgatar, expressar suas vivências e, principalmente, incentivar outros moradores a se expressarem, se ouvirem, se fortalecerem e conquistarem diversos espaços. 

O estudante de Letras  começou seu projeto como um livro e acabou se desdobrando e retornando à comunidade em forma de uma batalha de poesia falada, chamada Slam Maré Cheia. 

Ele promove batalhas de poesia que acontecem de forma itinerante, dentro de todas as 16 favelas da Maré, e qualquer pessoa pode participar. A  batalha é democrática e não de confronto, como são as de rima. Cada poeta tem três minutos para falar, mas o objetivo principal mesmo é escutar. 

“É um meio seguro para as pessoas falarem o que precisam e para incentivar a literatura no Complexo da Maré, um ambiente que não tem referências literárias próprias. O slam chega para suprir isso e ser uma plataforma para esses autores”, explica Matheus.

Este ano, a iniciativa venceu a 2ª edição do edital Fazedores do Bem + Active Citizens,  idealizado pelo CIEDS com apoio do British Council, e vai crescer ainda mais.

Matheus se orgulha ao contar que, até agora, cerca de 200 pessoas já foram impactadas. A nova fase, com o auxílio da formação e  doação do Fazedores do Bem , vai investir em equipamentos de som melhores e na criação de oficinas de literatura e performance para atender os poetas que querem aprimorar suas apresentações.

“Foi um presente gigantesco ser contemplado com essa ajuda do CIEDS, porque sou estagiário e investir nesse projeto estava sendo inviável. Com a injeção da doação, vai ser um alívio. A gente vai poder trazer a estrutura que a gente almejava há muito tempo. Embora não pareça ser grandes coisas, para a gente faz uma diferença enorme. Vai ser a realização de um sonho”..

Matheus conheceu o Fazedores do Bem + Active Citizens por meio do Redes da Maré, parceiro do CIEDS em diversos projetos. A troca foi essencial para que ele se inscrevesse no edital a tempo. 

Como conta a história do Matheus, o CIEDS acredita na força das favelas e vai construindo redes, fortalecendo organizações e projetos comunitários para potencializar a igualdade e a justiça social pelo país.

Autor: Bruna Santamarina / Foto: Patrick Mendes