'No Brasil temos duas línguas – português e Libras. Por que não aprender as duas?'

02/12/2019

Com auxílio de intérprete, Rede Aprendiz Rio capacita turma para incentivar inclusão de jovens deficientes auditivos no mercado de trabalho

Parece impossível conversar em dois idiomas simultaneamente, mas é isso que faz a intérprete Sônia Silveira. Enquanto escuta, em português, as orientações da pedagoga Janaína Faria, sinaliza a tradução do conteúdo, em Libras, aos alunos com deficiência auditiva da Rede Aprendiz Rio, programa de aprendizagem do CIEDS. Na atividade, o grupo é estimulado a desenhar bons momentos. Por não terem uma relação direta com a língua falada, jovens surdos têm mais dificuldade de expressar sentimentos e abstrações.

"Comecei há quase dois meses aqui com essa turma e me apaixonei. Há uma preocupação de ver, no jovem, a capacidade; e de ajudar ele a se conhecer como parte da sociedade, e não como externo", comenta a intérprete, após conduzir quatro horas de aula ao lado da pedagoga. "Estou aprendendo com eles mais do que eles comigo, com certeza. Estamos tentando nos adequar, para que outros também se sintam acolhidos", completa Janaína.

Por ser uma turma inclusiva, há surdos e ouvintes. Na opinião de Brenda Lopes, formada em Recursos Humanos e uma das alunas do Programa de Aprendizagem, isso não é um problema. Pelo contrário, só agrega positivamente. "Acho importante essa composição do grupo. Cria uma troca que abre a mente. Com acessibilidade, fica mais fácil conhecer o outro e ter uma conexão", sinaliza a jovem, em Libras, com tradução da intérprete.

O grupo frequenta as aulas há cinco meses, quando foi inserido no mercado de trabalho. "Aqui na Rede, o respeito é igual, tanto para ouvintes, quanto surdos. Estou gostando muito desse curso, gera curiosidade para aprender e se desenvolver na vida profissional", avalia outra aluna, Ane Caroline do Nascimento, também em Libras com tradução para o português.

Todos expressaram que, apesar de empregados, encontram dificuldades no mercado. Com esforço, conseguem aprender e se desenvolver profissionalmente, mas ainda esbarram em barreiras de comunicação com os colegas de equipe. Este é o caso de Larissa Alves, que trabalha no setor de TI (Tecnologia da Informação), por exemplo.

"Quando os outros setores precisam de algum auxílio, algum reparo nas máquinas, eles entram em contato comigo. Mas, quando eles ligam para me chamar, como eu vou fazer? Sou surda, não consigo atender o telefone para receber os chamados.", conta a aprendiz, em Libras, com tradução da intérprete.

O problema também afeta o jovem Thiago Oliveira. "Comunicação não tem, é só escrita. Quando outros funcionários vêm falar comigo, é difícil, às vezes. O chefe sabe e explica que sou surdo. Precisa de mais comunicação, de forma mais clara. Se não souber Libras, uma dica é falar mais devagar", aconselha o profissional aprendiz.

Aprendizes sentados no chão em círculo com instrutora

Além do trabalho junto à Rede, a intérprete também coordena um curso de Libras há quatro anos e faz atividades em empresas. "Que esses jovens [surdos] têm como contribuir numa empresa, dúvida nenhuma eu tenho. Eles são interessados, querem desenvolvimento, mas não sabem como, devido às dificuldades que encontram na sociedade. A acessibilidade encontra barreiras na língua. As empresas acreditam, querem usar esse profissional? Tudo bem. Mas precisam primeiro se preparar. Devem se perguntar: preciso de um profissional intérprete? Ou preparo a minha equipe, o RH, meus líderes?", explica Sônia.

E continua: "O relacionamento pode fluir bem, se a empresa se preparar antes. É ter esse profissional por querer de verdade, por acreditar na possibilidade de usá-lo. Surdos são focados, têm uma atenção dobrada, uma percepção melhor. Porque perderam a audição, eles desenvolvem outras habilidades".

Mas não foi sempre que Sônia teve essa visão. Quando estava grávida de dois meses, descobriu que estava com rubéola e, mais tarde, que sua filha nasceria com deficiência auditiva. "Foi uma surpresa. Pude pesquisar, ler, me preparar para recebê-la. Mas não tão bem, porque não estudei Libras. Eu não sabia, não conhecia. Só conheci depois da minha filha já crescida. Aos 15 anos dela, comecei a estudar Libras de verdade. Entrei num curso no INES [Instituto Nacional de Educação de Surdos]. Comecei a praticar, ter contato com outros surdos, me formei. Depois, decidi que só isso não era suficiente. Fiz uma pós em interpretação e tradução em Libras. Mudei minha atividade profissional", lembra.

Hoje, a filha já é adulta e está prestes a se formar em pedagogia. Encontra-se num contexto parecido dos jovens aprendizes da turma que Sônia conduz: busca inserção no mercado de trabalho. "Eles são pessoas capazes. Podemos tê-los nos grupos de funcionários, vai ser bom. Acredite nisso. Libras transforma vidas. Transforma a vida do surdo, porque recebe oportunidade. E transforma a vida da pessoa que está junto", incentiva Sônia.

Ela avalia que o idioma deveria ser ensinado nas escolas e fazer parte da grade regular de matérias: "Crianças, desde cedo, deveriam começar a entender, a ter contato, para sentir que é natural. Aqui no Brasil, temos duas línguas – português e Libras. Por que não aprender as duas? Eles, os surdos, também precisam aprender o português escrito".

Autor: Bruna Santamarina