Multiplicando conhecimentos e experiências: formação empreendedora que gera oportunidades para migrantes

26/11/2019

A venezuelana Adriana participou da formação do Programa Pense Grande onde também atuou como mediadora em Boa Vista (RR)

Após muitas tentativas (e negativas) de trabalho, a venezuelana Adriana Yelitza Duarte Bencomo ficou muito feliz quando finalmente ouviu o tão esperado “sim” após ser aprovada para compor o time de mediadores das oficinas de sensibilização com foco em empreendedorismo do programa Pense Grande, iniciativa da Fundação Telefônica Vivo realizada pelo Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável (CIEDS). 

A ação de mobilização com migrantes venezuelanos no município de Boa Vista (RR) foi escolhida para ser o início de uma série de atividades que compõem  outro projeto do CIEDS, o Redes de Integração Socioeconômica (RIS), promovido em em parceria com a Fundação Iochpe, patrocínio da da Open Society Foundation e cooperação com PNUD e ACNUR., “Que bom quando alguém responde que sim”. 

Após concluir a formação com a metodologia do jogo Se Vira, iniciativa do Pense Grande, Adriana passou a mediar processos formativos em abrigos e espaços educacionais, oportunidade de colocar em prática o que aprendeu e gerar para si um incremento de renda. Depois, ela ainda atuou como voluntária no Inspira Boa Vista, evento local de empreendedorismo promovidos pelo RIS e participou como aluna da formação continuada em Direitos, Cultura e Habilidades para Vida, cujo conteúdo foi desenvolvido pelo CIEDS, Fundação IOCHPE e PNUD. Recentemente, também participou do Dia de Ideação Coletiva, onde os empreendedores brasileiros e venezuelanos receberam mentoria e puderam apresentar seus negócios para uma banca de avaliadores. Adriana foi então selecionada para a Formação em Empreendedorismo, a última etapa formativa promovida pelo RIS antes da incubação dos negócios, 

As oficinas do Programa Pense Grande focaram em potencializar os diálogos a partir das vivências pessoais dos participantes, migrantes, refugiados e brasileiros de baixa renda, e abordar habilidades e atitudes empreendedoras por meio de um jogo para criar estratégias de resolução de problemas. Realizadas entre junho e agosto deste ano, as oficinas passaram por todos os 10 abrigos de Boa Vista, que acolhem aproximadamente 7 mil pessoas, entre crianças, jovens, adultos e idosos.

Na etapa de formação do Pense Grande, com o jogo Se Vira, metodologia de sensibilização e mobilização que visa difundir a cultura do empreendedorismo de impacto social, Adriana conta que a convivência entre brasileiros e venezuelanos, tanto como participante, quanto como formadora, resultou em um grupo muito unido e a experiência foi muito importante individual e coletivamente. A princípio com medo da competição entre si, pois sabiam que apenas alguns seriam selecionados para a segunda fase, o grupo terminou se apoiando e torcendo uns pelos outros. 

Quando Rosane Santiago, Gerente de Articulação e Desenvolvimento Institucional do CIEDS, comunicou ao grupo que todos foram selecionados como mediadores do Pense Grande em Roraima, , a felicidade foi geral. Nesta oportunidade, Adriana replicou a metodologia do jogo Se Vira em espaços educacionais, como a Casa da Mulher Brasileira e o Centro Universitário Estácio da Amazônia, e em abrigos de migrantes e refugiados. 

Com o jogo Se Vira como ferramenta, ela contribuiu no processo de integração de outros migrantes em abrigos da cidade, com foco na geração de oportunidades de negócios, e percebeu a capacidade dos venezuelanos de se adaptarem à nova condição, mesmo com todos os problemas enfrentados em seu país de origem e no Brasil, e relatou a movimentação empreendedora dentro dos abrigos. “A crise política provocou um momento de muita criatividade, de todos os lados, e trouxemos isso para cá” e, ao falar de atitudes empreendedoras nas oficinas, “as pessoas ficaram querendo saber muito mais”. 

Aos 35 anos, formada em comunicação social e com experiência com audiovisual em Caracas,  Adriana acredita que a oportunidade de atuar como mediadora nas oficinas possibilita apoiar os processos de migração de outros migrantes, o que é muito gratificante. “Com um sorriso, com dedicação, com um pouco de paciência e escuta, a gente pode fazer com que os processos dos outros fique um pouco melhor”. Para ela, uma das melhores coisas de mediar as oficinas é se sentir “útil" e “ajudar a mudar pessoas”, em um processo de transformação que é individual, mas também é coletivo, e destaca a importância do olhar de quem já passou pelo processo de migração no papel de mediadora do projeto. 

“Alguns estão mais empoderados, falando com força, e outros ainda não conseguem falar nem ver nada de positivo nesse processo de deslocamento”. Por isso, a necessidade de diversificar as ferramentas e abordagens, pois os venezuelanos estão em diferentes fases de reconstrução de suas vidas, passando por momentos muito difíceis. “Escutar coisas muito fortes e tentar transformar isso em uma coisa boa, que fortaleça, é muito terapêutico tanto para mim como para eles”. 

A experiência como mediadora  das oficinas do Pense Grande e aluna na formação em Direitos, Cultura e Habilidades para Vida  foram muito gratificantes para Adriana, que viu nas formações “um trabalho horizontal, construído entre todos, desafiante e com muito para contribuir de forma integral, porque não é pensado só de um jeito técnico, mas de um jeito muito profundo, tocando em muitos níveis das pessoas. Eu gostei muito”.

Ariana em ação com equipe de produção, filmando artista diante de seus quadros.

Transformando criatividade em geração de renda 

Com a chegada de milhares de pessoas que buscam refúgio da crescente e acentuada crise política, Boa Vista chamou a atenção de organizações da sociedade civil preocupadas com os impactos sociais, econômicos e culturais deste processo. O CIEDS viu neste cenário um polo de oportunidades e empreendedorismo baseado na economia criativa, afirma Rosane Santiago. 

As oficinas Pense Grande representam uma etapa importante de introdução ao empreendedorismo como ferramenta de transformação social e, em setembro, o Redes de Integração Socioeconômica promoveu o Dia de Ideação Coletiva, evento no qual Adriana foi uma empreendedora participante. 

Após a conclusão da formação em Direitos, Cultura e Habilidades para Vida, participantes que quisessem empreender foram convidados a se inscrever para o evento, que contou com um processo seletivo específico. Os empreendedores selecionados  passaram um dia inteiro pensando em ideias de negócios, focando em soluções colaborativas para problemas do território. A proposta do evento foi apresentar o empreendedorismo como veículo de desenvolvimento local e reunir diversos atores sociais para discutir os problemas e soluções para o território. Ao fim do dia, os participantes puderam apresentar suas ideias de negócio para uma banca de avaliação, que escolheu os mais preparados para a Formação Empreendedora.

A venezuelana confessa que, apesar de desafiadora, a experiência foi muito positiva. “Foi incrível, acho que fortaleceu muito minha segurança e meu portunhol”, brinca defendendo o empreendedorismo como uma das poucas ferramentas possíveis para melhora da qualidade de vida de migrantes e grupos minoritários. “É muito importante que qualquer população vulnerável entenda a importância de fazer seu próprio projeto, levar adiante sua própria ideia e ir com ela até o final, porque é o único jeito de alcançar nossos sonhos”. 

Adriana também tem uma atuação independente dentro dos abrigos, promovendo oficinas em que aborda desde questões básicas e informações sobre direitos e deveres dos venezuelanos no Brasil e técnicas de produção audiovisual para formação profissional, até práticas de meditação, ioga e diferentes tipos de terapias de autocuidado e controle de ansiedade. Adriana atuou multiplicando seu processo de formação e compartilhando suas experiências com outros refugiados.

Ariana e outras dançarinas sentadas no palco depois de apresentação.

Migrar e começar de novo 

Atuar como mediadora do projeto Pense Grande representou um recomeço para Adriana, que hoje também trabalha na maior produtora audiovisual da cidade, e conta que seu processo de migração aconteceu aos poucos: primeiro realizou alguns trabalhos esporádicos no Brasil, depois foi contratada para filmar o Monte Roraima. Entre as indas e vindas para visitar a família, foi sentindo a condição de vida da população piorando e acabou se estabelecendo em Boa Vista. 

Após várias negativas de trabalho em agências de publicidade e propaganda, ela acredita que esses espaços ainda são muito inacessíveis para migrantes venezuelanos. “Por mais que você tenha currículo, você tem que começar de novo”, explica ressaltando que o preconceito agrava muito a situação de vulnerabilidade que os migrantes e refugiados já se encontram quando chegam ao nosso país. 

Nas oficinas que realiza com migrantes dentro do abrigo, Adriana reconhece as marcas deixadas pela discriminação e o processo de “renascimento” de muitas pessoas, que inicialmente têm dificuldade de aceitar a nova condição de deslocamento, mas também afirma sua satisfação em atuar acompanhando esses processos. “É muito compensador, uma possibilidade de trocar, de fazer alguém refletir e mudar”, conta.


O Programa Pense Grande é um projeto da Fundação Telefônica Vivo, desenvolvido em parceria com o CIEDS, voltado para jovens interessados em ampliar suas possibilidades de futuro, a partir do desenvolvimento de empreendimentos sociais. No programa, os/as participantes têm a oportunidade de desenvolver e incubar negócios com soluções que podem melhorar sua vida e a de outras pessoas.

Autor: Dayse Porto