Mapeamento Territorial do Porto se destaca por englobar morro e não só asfalto

13/01/2020

Para moradora que realiza projetos sociais de teatro, CIEDS teve o cuidado de entender a fundo as peculiaridades da região

Cíntia Sant’Anna, atriz e professora moradora do morro da Providência, está à frente de vários projetos sociais na região, especialmente ligados à produção cultural e ao teatro para crianças e adolescentes, como o Entre o Céu e a Favela, o Bando Teatro Favela e o Favela Feminino Plural. Atualmente, tem entre 15 e 20 alunos, a maioria na região da Pedra Lisa, área mais vulnerável da Providência.

"Preciso fazer isso por mim, pela minha saúde mental. Trabalho só com isso. Tenho tido a sorte de conseguir sobreviver, com a ajuda da minha família. Estar no território, passando o que sei e aprendendo com as pessoas o que elas sabem, mantém minha saúde mental. Nesses últimos quatro anos, 96% do que eu faço é para o morro. Preciso deixar alguma coisa aqui plantada para quem vier depois."

Ela explica que ensina muito mais do que o ofício da atuação e os bastidores do teatro. A ideia maior é fazer crescer a força de crianças e adolescentes, para que eles percebam que podem ser o que quiserem. "Claro que faço isso com o coração na mão. A gente vive a realidade e sabe que não é simples. Mas sonhar, nesse primeiro momento, é importante", divaga a professora.

Cíntia traz ainda que a maioria dos projetos acaba tendo que descer o morro para conseguir apoio: "É sempre uma via de mão única, sempre a gente descendo para fazer atividades com eles, nas casas, nas praças, no asfalto. Mas é importante ocupar o território também aqui em cima. O fomento, aqui, não chega".

Passou sua infância na Central do Brasil, morando com a mãe e os irmãos. Ao longo da adolescência, viveu em vários pontos do bairro. "Até os 18, 20 anos, eu trabalhava nessas coisas que preparam para o nosso futuro: lanchonete, empresa de telemarketing. Um dia, vi um grupo de teatro na rua e fui atrás deles", conta ela. 

Ficou com o grupo por oito anos. "Durante esse processo, fui me dando conta de muita coisa: de me reconhecer como cidadã, da questão política, de entender que existe autoestima, de conhecer meu direito à cidade. O teatro mudou minha vida, me fez começar a querer coisas que eu nem sabia que poderia querer também". Foi um verdadeiro divisor de águas.

O CIEDS conheceu a história da Cíntia ao realizar um Mapeamento Territorial do Porto, com o cuidado de entender a peculiaridade de cada território e, consequentemente, suas necessidades.

“Você não vai à casa de uma pessoa sem ser convidado e, mais ainda, não mexe nos móveis da casa como se fosse o dono”: foi com essa metáfora que Cíntia destaca o diferencial de atuação do CIEDS e um parceiro financiador. "Que esse posicionamento seja um exemplo para pessoas que chegam na região", clamou.

Cíntia tem 33 anos e sempre morou na região. Durante os anos, viu muitos pesquisadores buscarem informações do morro da Providência, mas a maioria não teria dado retorno a respeito de seus estudos. A experiência de contribuir com o mapeamento foi, na opinião dela, "enriquecedor". "Não tem como falar da região portuária e colocar a Providência no mesmo contexto dos bairros do asfalto", analisou a atriz.

Autor: Bruna Santamarina