Crenças e amarras na gestão social

06/10/2021

Leia o novo artigo de Vandré Brilhante, diretor-presidente do CIEDS

Há alguns dias, assisti a uma apresentação do TED, realizada em 2013, por Dan Palloto, empreendedor e gestor social californiano, que me levou a refletir profundamente sobre nosso quase literal processo de enxugar gelo.

Comecei muito cedo a atuar como gestor no terceiro setor.  Aos 20 anos, assumi como voluntário a diretoria financeira e vice-presidência do AFS Intercultura Brasil. Aos 25, atuei como gestor de projetos e relacionamento no projeto de apoio ao desenvolvimento local da Fundação Friedrich Ebert no Brasil.  Logo em seguida, aos 29, fundei o CIEDS e continuo à frente da instituição até hoje. E lá se vão muitos anos! Isso para dizer que o que relato a seguir está intrinsecamente ligado à vida de um gestor e empreendedor social no Brasil.  

Vamos falar de crenças que nos ensinaram sobre a forma como fazemos inovação social, caridade, filantropia, doação, gestão e inovação social.  Essa crença está na realidade minando as causas que amamos e nosso profundo anseio de mudar o mundo.

Negócios sociais precisam de integração com as leis de mercado e há inúmeras causas que não se resolverão se não usarmos os mecanismos existentes no mercado. Estas causas precisam do terceiro setor e da filantropia. Se quisermos um mundo onde ninguém será deixado de fora, o terceiro setor tem que ser considerado um ator estratégico, como a força de mercado que atua para melhorar a vida dos 10% mais excluídos da sociedade.  

Mas atualmente existe um sistema de crenças que mantêm as organizações sociais pequenas. Um sistema que separa o terceiro setor do resto da economia. Como apresenta Dan Palloto, é um apartheid em cinco áreas:

1. Salários e Compensações

Nas empresas, quanto mais você investe, mais valor você gera. No terceiro setor, isso é visto como negativo. Temos uma reação radical a pessoas que ganham dinheiro ajudando, enquanto admiramos pessoas que ganham dinheiro sem ajudar ninguém!

Achamos que é um sistema ético, mas não compreendemos que há um efeito negativo poderoso ao nos colocar numa escolha entre acumular riqueza ou fazer o bem pelo mundo. As melhores mentes que saem das melhores universidades vão diretamente para o setor privado e têm como metas acumular riquezas e ascender individualmente. O setor privado tem salários inúmeras vezes mais competitivos que o terceiro setor.

2. Marketing e propaganda

O setor privado diz para gastar, gastar e gastar até o último dólar com propaganda! Mas não gostamos de ver nossas doações serem gastas com marketing. As pessoas querem se envolver, doar, mas precisam ser convidadas para tal. Só é possível ter um grande apoio quando o chamado é feito por anúncios de massa. É muito comum aqui no Brasil ver grandes empresas comprarem páginas inteiras em jornais de grande circulação para anunciar seus feitos sociais, enquanto a organização social pareceria e executora conta com orçamento zero para comunicação das mesmas ações.

A pesquisa Doação Brasil 2020, coordenada pelo IDIS (www.idis.oirg.br), aponta que as doações vêm caindo. Em 2015, o valor total das doações em dinheiro, bens e trabalho voluntário representou 0,23% do PIB.  Em 2020, apenas 0,14%. Nos Estados Unidos, referência de cultura doadora, os valores têm se mantido estáveis a 2% do PIB nos últimos 40 anos. Como expandir esse percentual se no terceiro setor não é permitido o investimento em marketing e propaganda? As ONGs são desestimuladas a mostrarem suas vantagens.

3. Assumir riscos em investimentos que podem trazer retorno financeiro

Se a Disney tiver um prejuízo de 500 milhões em uma produção, ninguém chamará o ministério público para investigar, mas se uma ONG arrecadar investimento de 1 milhão em uma tecnologia social de larga escala para diminuir a pobreza e o resultado não produzir um lucro de no mínimo 75% para a causa, o caráter da ONG é colocado em dúvida. Quando se coíbe o fracasso, se está coibindo a inovação. E se a instituição não pode crescer de forma estruturada, não poderá resolver os grandes problemas sociais.

4. Tempo

A Amazon ficou 6 anos sem dar lucro e os acionistas foram pacientes.  A Uber está há mais de 10 anos sem gerar lucro.  Mas se uma ONG investir por 6 anos em um negócio que vise escala e não gere lucro imediato, ela será crucificada.  A sociedade quer que a ONG invista diretamente na causa e não na estruturação de seus negócios sociais. Correr risco de mercado e inovar é como profanar a beleza do trabalho social.

5. Lucro para atrair capital de risco

Empresas distribuem seus lucros para atrair mais investidores, mas uma ONG não pode lucrar. Isso bloqueia o acesso de ONGs a mercados trilionários de fundos e ações e com investidores buscando novas ideias e riscos para investir.    

Sem falar que impede ainda as ONGs de acessar garantias bancárias ou créditos no mercado financeiro, porque a legislação arcaica direciona as implicações para o conselho diretivo que é voluntário e não atua no dia a dia da gestão. E aqui surge outra consequência: formar e ter um conselho diretivo que assuma esses riscos legais de organizações sociais pequenas, que não contam com estrutura para garantir a segurança necessária aos conselheiros.

Por que pensamos assim?

Esses cinco fatores juntos colocam o terceiro setor em extrema desvantagem competitiva em todos os níveis. Estamos lidando com problemas gigantes e nossas organizações sociais não conseguem gerar nenhum impacto considerável.

Na América do Norte, esse pensamento vem da crença dos Pilgrims, os puritanos calvinistas. Estes eram altamente capitalistas e visavam o lucro, mas isso ao mesmo tempo os levaria ao inferno, segundo sua religião. Então, surgiu a caridade, que se tornou o santuário econômico para amenizar o pecado.

Nos últimos 400 anos, nada mudou, nada interveio para dizer que isso é contraprodutivo e injusto. Assim como a meritocracia cria suas amarras, essa ideologia é policiada por uma questão muito perigosa. Qual o percentual da minha doação vai para a causa e qual o percentual vai para o “overhead”/gestão?

Há muitos problemas com essa questão. Primeiro, nos faz pensar que a manutenção e a gestão da organização não fazem parte da causa. Um engano, pois são partes importantes, especialmente quando usadas para crescimento e desenvolvimento da instituição.

Segundo que força as organizações a mascarar os recursos que elas precisam para crescer e se desenvolver a fim de manter as despesas baixas. Isso leva as ONGs a investirem pouco em desenvolvimento ou em campanhas de arrecadação, para que sobre mais para a causa, criando assim um círculo vicioso negativo e que atua contra a própria causa.

Ao discutir o aumento da escala na atuação como potencial para a mudança que queremos, trazemos aqui a necessidade de entender que legado queremos deixar para as próximas gerações. O legado não pode ser “mantivemos o overhead em 5%”.  O legado deve ser "resolvemos inúmeros problemas caros para sociedade e o bem-estar coletivo".

Se conseguirmos mudar o pensamento e a crença, mudar a generosidade do pensamento, o terceiro setor poderá ter um papel importante na mudança de mundo que queremos.

Devemos assumir a responsabilidade para revisitar, reinventar e revisar toda a forma como a humanidade pensa em mudar a vida e as coisas para sempre e para todos. Impossível uma sociedade plena e feliz, quando somente alguns usufruem dessa prosperidade.  Empresas e governos devem entender que o modelo atual não funciona, gera vícios e mantém os mais pobres na pobreza. Manter crenças e amarras a um modelo excludente é construir um futuro injusto e uma nação partilhada.

Texto por: Vandré Brilhante

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