Chama na Solução debate violência de raça com vereadoras

01/04/2022

Jovens dialogam com representantes do poder público em encontro

O diálogo de juventudes com representantes do poder público deveria ser uma constante, mas nem sempre é assim. Por isso, um encontro que ocorreu na última semana, como parte do projeto Chama na Solução, foi tão potente. Jovens da cidade de São Paulo puderam conversar com duas vereadoras da capital paulista, Elaine Mineiro e Paula Nunes, em uma iniciativa capitaneada pelo UNICEF, Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para a Infância, órgão das Nações Unidas, com o CIEDS. O tema em questão foi violência de raça e as representantes do legislativo trouxeram a perspectiva da construção de políticas públicas afirmativas à população negra e indígena na Câmara de Vereadores de SP. 

 A reflexão deu luz ao papel das juventudes na construção dessas políticas, citando a recente campanha do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para que adolescentes de 16 e 17 anos tirem o título de eleitor. Antes do início da campanha, o engajamento dessa faixa etária no país era o menor já registrado desde que esse tipo de acompanhamento começou, há 30 anos.  

Mas tirar o título de eleitor não basta, ressaltou uma das convidadas do Chama na Solução. É necessário mais do que apenas votar nas eleições. O ato é uma importante afirmação de direitos, é claro, mas a participação das juventudes na construção de políticas públicas deve ser algo recorrente, e não limitado à ida às urnas a cada dois anos. 

"Só de organizar um grêmio na sua escola, de se dispor a utilizar um tempo que é seu para um projeto que é coletivo, já é algo muito bom. E que vai ser sempre muito difícil. Mas quando a gente entende a importância de se colocar como seres coletivos no mundo – não estou num mandato coletivo à toa, é porque entendo e aposto muito na importância dessa coletividade –, a gente entende que não está fazendo isso por nós mesmas. Não estou fazendo isso porque acho legal ser vereadora. E sim porque é uma necessidade", completou Paula. 

Ainda dentro da questão de violência de raça, Elaine levantou a questão da representatividade, especialmente nos campos de poder, como a Câmara, e sobre como essas violações aparecem de diferentes formas, ao longo de toda a vida. "Todas as mulheres negras da minha idade que conheço não tiveram bonecas negras, a não ser que elas fossem fabricadas pelas suas famílias. É importante ver pessoas negras em todos os espaços. Mas não basta ser negra para representar pessoas negras, sobretudo no campo político. [...] Também é racismo quando a gente pensa que todo negro, só por ser negro, tem a obrigação de conhecer todas as pautas e questões raciais." 

Ao abrirem os microfones para perguntas e comentários, vários jovens contribuíram. Em certo momento, uma jovem identificada como Lilith, que está no ensino médio, comentou sobre o impacto que a falta de educação sobre a cultura negra teve em sua vida e como ela gostaria que fosse o cenário do ensino sobre história no Brasil. 

"Até hoje, a educação referente à cultura negra é só a história da escravidão. Parece que a história dos negros começa a partir do momento em que eles se tornam escravos. A religião afro é uma coisa que não é falada na escola, por exemplo. Eu me encontrei muito em religiões afros, me senti mais conectada aos meus ancestrais. Tiveram muitas pessoas incríveis na história negra e ensinar isso nas escolas seria revolucionário para autoestima das pessoas negras". 

Paula Nunes também trouxe a questão das violências de raça em sua fala de abertura: "Enquanto a gente não fala de segurança pública sob uma ótica de direitos humanos, de defender o nosso povo, infelizmente tem gente promovendo uma lógica de segurança que só faz nos exterminar". 

Os ciclos de debates aconteceram às quintas-feiras, com o objetivo de trazer reflexões sobre direitos humanos, políticas públicas, violação de direitos, violências e outros temas transversais identificados pelos adolescentes e jovens participantes da iniciativa. 

Sobre o Chama na Solução 

O mês de março ainda foi marcado por outros encontros formativos no projeto Chama na Solução. Além de violência de raça, os debates foram sobre violência de gênero e direitos humanos. 

O Chama na Solução promove a formação de 50 adolescentes e jovens de 14 a 24 anos, moradores de favelas e territórios periféricos de São Paulo, nos temas das múltiplas violências (de raça, de etnia, de gênero, de identidade, de sexualidade, psicológica, entre tantas outras), bem como temas de educação sexual e empoderamento das juventudes. 

O CIEDS acredita no protagonismo juvenil, no potencial que cada jovem tem de transformar a própria realidade, diante de oportunidades, que precisam ser iguais para todos. Por isso, a formação tem ainda o objetivo de instrumentalizar e apoiar as e os participantes no processo de construção de soluções estratégicas para identificação e prevenção das múltiplas violências em seus territórios, a partir de suas vivências, bagagens e saberes. 

Além dos ciclos de debates, estão previstas mentorias e oficinas virtuais. Ao longo do projeto, os jovens recebem ajuda de custo para assegurar suas participações no processo formativo. Ao final, os jovens criarão iniciativas próprias que impacte seus territórios e suas realidades. 

Sobre o CIEDS 

Há 23 anos, o CIEDS promove um Brasil melhor para todos por meio de projetos, programas e ações que geram mais renda, mais saúde, melhor educação, maior confiança no futuro e, acima de tudo, prosperidade. Faz tudo isso construindo redes de parceiros estratégicos comprometidos com o desenvolvimento sustentável de nosso país. 
 
CIEDS: Parcerias Estratégicas que constroem redes para a prosperidade 

Sobre o UNICEF 

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) trabalha em alguns dos lugares mais difíceis do planeta, para alcançar as crianças mais desfavorecidas do mundo. Em mais de 190 países e territórios, o UNICEF trabalha para cada criança, em todos os lugares, para construir um mundo melhor para todos. 

Sobre Elaine Mineiro 

Elaine Mineiro é vereadora do mandato coletivo do Quilombo Periférico na cidade de São Paulo. É mãe, geógrafa, arte educadora e articuladora cultural. Já atuou como coordenadora de núcleos de base da UneAfro Brasil do Jardim Pantanal, bairro de São Miguel Paulista, integrou a comunidade do Jongo de Guaianás e o grupo musical Samba das Pretas de Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo, onde vive desde a infância. 

Sobre Paula Nunes 

Paula Nunes é vereadora do mandato coletivo da Bancada Feminista na cidade de São Paulo. É ativista do movimento das juventudes, do Afronte, e do movimento negro desde 2012. Participa da marcha das mulheres negras de São Paulo e já ajudou a constituir diversos grupos de combate ao racismo, como a Coalizão Negra por Direitos e o Comitê contra o Genocídio da Juventude Negra. É advogada criminalista e defensora dos direitos humanos. 

Fotos: Reprodução/Instagram

Texto por: Bruna Santamarina

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