Autonomia passo a passo

08/05/2018

Márcio, morador de uma SRT, constrói com coragem, as pequenas e grandes experiências do viver

Márcio é frequentador assíduo das atividades do CAPS João Ferreira, no Complexo do Alemão. Vai ao CAPS quase todos os dias, de ônibus. Participa do Grupo Vozes, um espaço de terapia coletiva e faz Oficina de Música. No primeiro encontro no CAPS, ele fala da importância de participar do Grupo Vozes e a possibilidade de conversar sobre as coisas que acontecem no dia a dia, como seus problemas, e de poder trocar e ouvir os companheiros. Na Oficina de Música, tem o seu pandeiro, o instrumento preferido. Na sala da Oficina, ele pega o instrumento e começa a batucar, meio sem ritmo.

Mas ele gosta de alguma música. Um compositor? A resposta vem com a canção de Chico Buarque, Homenagem ao Malandro, que Márcio entoa compenetrado, com a letra na ponta da língua.

A autonomia é um valor pra ele. Vai ao CAPS sempre sozinho, não precisa nem quer a companhia de cuidadores. Gosta da liberdade e só uma coisa o preocupa: quer muito voltar a trabalhar.

Ele já viveu a experiência do trabalho assistido no Supermercado Prezunic, onde ficou por cinco anos. Trabalhando dois dias por semana, duas horas por dia, Márcio assumiu diversas tarefas no mercado, como arrumar prateleiras ou empacotar as compras. Mas mesmo com todo o apoio das equipes do projeto  e da Residência, não conseguiu suportar a tensão, porque as vozes e alucinações que o atormentavam ficaram muito intensas e ele precisou desistir. Mas lamenta muito ter perdido o trabalho.

Gostava daquela rotina, de cuidar do uniforme, do compromisso de sair para trabalhar e principalmente de ter com o que se ocupar.

O olhar vai bem longe, talvez mirando a oportunidade de trabalhar.“E por que não fazer biscoitos para vender? Será? É possível?” – Márcio sorri, enlevado com essa nova possibilidade.

O encanto do perfume do biscoito naquela cozinha iluminada está no movimento que Márcio fez para criar aquele momento. Depois de viver muito tempo como interno no Instituto Municipal Nise da Silveira e nas moradias dentro do manicômio, numa fase intermediária da desinstitucionalização, ele vem reconstruindo a vida na Residência Terapêutica. 

Depois de uma tarde de conversa sobre as atividades no CAPS e sobre a Oficina de Alimentação Saudável, na hora da despedida ele tomou a decisão: “Olha, convido vocês para lanchar lá em casa. Eu vou fazer o biscoito para vocês provarem”.

Entre as solitárias viagens de ônibus que faz para cumprir seus compromissos e atividades, as Oficinas de Música no CAPS, a travessia até outro lado da cidade até São Conrado para aprender uma receita, Márcio estrutura uma nova vida.

Com sua delicadeza peculiar toca de leve, mas com coragem, as pequenas e grandes experiências do viver – cantar, misturar a massa e como um alquimista criar um alimento; trabalhar, sorrir satisfeito ao entrar na brincadeira de ser fotografado, ou batucar no seu pandeirinho uma bela canção do Chico.

A porta aberta da sua casa permite esse fluxo – o ir e vir, entrar e sair – que é viver. Permite fazer novos amigos, convidar para um lanche e decidir o que oferecer. Escolhas que vão redefinindo aquela casa, seus moradores e todos os que chegam para ver, conhecer essa experiência. Deixa lá no forno, Márcio, esse bolo da vida que só vai crescer.

Autor: Nívea Chagas