No primeiro texto desta série de artigos sobre Democracia, escrevi que o CIEDS é apartidário, mas não apolítico. E que reconhecer a democracia como um compromisso do CIEDS significa, antes de tudo, reconhecer que não existe neutralidade diante daquilo que sustenta (ou ameaça) a vida coletiva.
Reconhecer esse compromisso é apenas o começo. A pergunta seguinte é mais difícil: o que fazemos, na prática, para fortalecer a democracia?
O voto é fundamental, mas a democracia não acontece apenas no dia da eleição. Ela acontece quando uma pessoa ocupa um espaço que antes parecia não ser seu. Quando uma comunidade é ouvida antes que uma política seja desenhada. Quando opiniões diferentes conseguem permanecer na mesma conversa. Quando jovens percebem que também podem participar dos lugares onde as decisões são tomadas.
É aí que o trabalho cotidiano de uma organização como o CIEDS encontra a democracia.
Pontes sobre o abismo: o voto como resistência e igualdade
Mas há um segundo desafio que preciso nomear com a mesma clareza: a polarização. O Brasil de 2026 é um país em que parcelas significativas da população vivem em mundos informativos completamente diferentes, consomem realidades incompatíveis, falam línguas que parecem não ter tradução. Esse é o cenário em que os projetos do CIEDS precisam agir.
E esse cenário nos impõe uma disciplina que não é covardia, mas precisa ser estratégia. Quando digo que o CIEDS está pelo processo democrático e não por um resultado específico, não estou fazendo concessões. Estou dizendo que o nosso papel é construir pontes onde o mercado e o Estado não chegam. É ser interlocutor de confiança de comunidades que têm perspectivas políticas diversas, e que merecem o mesmo cuidado e o mesmo respeito independentemente de como votam.
Focar em propostas e não em candidatos não é esquivar. É recusar a captura. É insistir que educação, saúde, habitação, alimentação, segurança — esses são os temas que nos organizam. Não nomes. Não partidos. Os temas que sustentam a vida das pessoas com quem trabalhamos.
Podemos e devemos falar sobre o voto: não sobre em quem votar, mas sobre por que votar importa, sobre como votar é um ato de resistência histórica para tantas das comunidades que atendemos.
O voto não é a democracia. É um ato dentro dela, necessário, mas insuficiente. Democracia é cotidiana: é feita de conselhos participativos, de controle social, de uma imprensa que pode publicar o que apura, de instituições que resistem à pressão do poder. Mas o voto é o piso mínimo. É onde cada cidadã e cidadão, independente de classe, raça ou território, tem o mesmo peso. Esse igualitarismo radical é raro na história. É precioso. É preciso defendê-lo, inclusive removendo os obstáculos práticos que ainda impedem muita gente de chegar até a urna.
Protagonismo juvenil: exemplos práticos de participação política
Mas deixe-me sair da abstração por um momento. Enquanto construía esses argumentos, os projetos do CIEDS já estavam fazendo. Com materiais simples e metodologias cuidadosas. Com jovens de verdade, em territórios de verdade.
Na Semana da Juventude em São Paulo, conduzimos rodas de conversa e pocket-shows com oito turmas do Coletivo Aprendiz, a partir do filme "Jamais Desistir", realizado em parceria com o IBEAC. Samuel Santos, colaborador do CIEDS, contou sua trajetória — bolsista do ProUni, intercambista pelo Becas Europa Santander, produtor cultural financiado por editais públicos e privados — não para impressionar, mas para que ficasse claro: políticas públicas não são abstração. São o que permitiram que ele chegasse onde está. São o que está em jogo em cada eleição.
Os jovens com quem conversamos não eram apolíticos. Eram diagnosticadores precisos de um sistema que ainda não aprendeu a ouvi-los. Quando falamos sobre ocupar espaços de participação e decisão, vários disseram que se sentem intimidados, seja pela linguagem excessivamente técnica, pela ausência de pessoas parecidas com eles, pelo medo de serem ridicularizados se disserem algo "errado". Então pesquisamos ao vivo: qual a porcentagem de políticos jovens no Congresso Nacional? A resposta: cerca de 3%, os deixou em silêncio por alguns segundos. E depois, indignados. E depois, pensativos.
Também trouxeram que é raro ver candidatos com propostas reais para as juventudes. A razão, na visão deles, é simples: a maioria propõe sem ouvir. Propõe o que imagina que os jovens precisam, não o que os jovens sabem que precisam. Esse diagnóstico é mais sofisticado do que muita ciência política que já li. E é o tipo de diagnóstico que só emerge quando criamos espaço genuíno para que ele apareça.
No Rio de Janeiro, o Coletivo Aprendiz fez diferente e, especialmente, bonito. Em agosto, o educador Rodrigo Telles organizou grupos de trabalho com os jovens aprendizes para que eles próprios planejassem e executassem atividades sobre "Democracia e Cultura". Rodrigo mediou sem assumir protagonismo — o que, em metodologia participativa, é uma das habilidades mais difíceis de desenvolver e mais transformadoras quando presente. Cada grupo criou uma proposta diferente. E os jovens foram à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.
O relato que chegou até mim trouxe um detalhe que não sai da minha cabeça: o momento mais marcante da visita não foi a explicação sobre como funciona o legislativo. Foi quando os jovens puderam acessar o plenário da Assembleia. O espaço físico onde as decisões são tomadas. E isso os deixou, como o relato descreveu, "animados e curiosos".
Arendt dizia que o espaço público não existe independentemente das pessoas que o habitam, ele é constituído pela presença e pela ação. Quando aqueles jovens entraram no plenário da ALERJ, não como visitantes passivos, mas como pessoas que têm direito de estar ali, algo se deslocou. Não sei se saíram de lá mais convictos de que vão votar. Mas saíram sabendo que aquele espaço é deles. E essa é, talvez, a semente mais importante.
Um convite à ação: democracia como nossa missão diária
O que propomos para os projetos do CIEDS, então, não é um mandato: é um convite. Um convite a assumir que democracia é parte da nossa missão, não como pauta adicional, mas como condição de tudo que fazemos. Que letramento midiático, diálogo plural, mobilização eleitoral, cultura democrática no cotidiano dos projetos e accountability são a nossa função, ampliada e aprofundada para este momento.
E um convite, também, à disciplina. À clareza sobre o que fazemos e o que não fazemos. À proteção dos espaços que construímos para que não sejam capturados pela polarização. À generosidade de reconhecer que as comunidades com quem trabalhamos são politicamente plurais e que essa pluralidade não é um problema a resolver, mas uma riqueza a honrar.
Naquela reunião, depois de um silêncio que se estendeu por alguns segundos a mais do que o habitual, alguém respondeu à própria pergunta: "a gente já faz isso. A gente só precisa nomear." Achei que tinha razão. O CIEDS promove a democracia todos os dias, nas rodas de conversa, nos espaços de escuta, nas articulações que constroem poder compartilhado. O que este momento pede é que sejamos mais conscientes disso. Que nomeemos. Que não tenhamos vergonha de dizer que ser apartidário é uma escolha ética, não uma ausência de compromisso.
Este texto não encerra nada. É um ponto de partida, para conversas internas, para ações concretas, para a coragem de ocupar o espaço que nos cabe sem pedir licença e sem cruzar linhas que não devemos cruzar. Sigo aqui, disponível para o debate.
E você? O que você já está fazendo pela democracia, mesmo sem ter nomeado assim?