Há algumas semanas, numa reunião com as equipes do CIEDS e considerando a proximidade com as eleições, nos perguntamos coletivamente: "o que estamos fazendo para fortalecer a democracia?" Não era uma pergunta sobre eficiência. Não era sobre metodologia ou sobre indicadores. Era uma pergunta sobre pertença. Sobre o dever, de existir politicamente neste momento.
A pergunta ficou na sala depois que a reunião terminou. Eu levei ela comigo para casa, para o silêncio das madrugadas, para as conversas improváveis que a gente tem consigo mesmo quando o barulho do dia não consegue mais encobrir o que é urgente. E cheguei a uma resposta que, quanto mais a revisito, mais me parece honesta: todas as nossas ações precisam, com intencionalidade, fortalecer a democracia. Não apesar de quem somos. Por causa de quem somos.
Existe uma confusão que percorre o campo da sociedade civil organizada como um vírus silencioso, e que precisamos nomear antes de qualquer outra coisa: a de que ser apartidário significa ser apolítico. Que manter distância de partidos é sinônimo de neutralidade. Que o silêncio, ainda que diante de ameaças à democracia, diante da erosão das instituições, diante da desinformação, é uma postura legítima de quem prefere "não se envolver".
Não é. Tomás Dye, ao definir política pública como a escolha do que fazer e do que não fazer, nos deixou uma pista que vale também para as organizações: a omissão é sempre uma decisão. Quando nos calamos diante de algo que sabemos que está errado, não estamos sendo neutros: estamos escolhendo não resistir. E essa é uma posição política.
O CIEDS é apartidário. E o CIEDS é político. Essas duas afirmações não se contradizem — se completam.
Ser apartidário significa que não temos filiação, não apoiamos candidatos, não fazemos campanha para nenhuma legenda. Mas ser político, no sentido que importa, o sentido que Paulo Freire chamaria de esperançar, significa ter valores, assumir compromissos, ocupar espaço. Significa dizer, sem constrangimento, que acreditamos na democracia. Que ela é o fundamento de tudo que fazemos.
E a democracia, continuadamente, precisa de nós.
Por que nosso impacto depende da democracia
Deixe-me ser preciso sobre o que está em jogo. Todos os projetos que o CIEDS executa, sejam de assistência social, de educação, saúde, geração de renda, proteção de povos originários, juventudes, diversidade, conectam-se a políticas públicas. Políticas públicas dependem de quem governa. Quem governa é escolhido em eleições. A cadeia parece simples, mas é frequentemente esquecida no calor do cotidiano de quem implementa projetos com poucos recursos e muita demanda. Precisamos lembrá-la.
Hannah Arendt nos ensinou que a perda do espaço público é sempre acompanhada da perda da capacidade de ação coletiva. Quando as pessoas perdem esse espaço, seja por apatia, seja por erosão deliberada das instituições, perdem também a possibilidade de construir o mundo em comum. Os projetos do CIEDS são, eles mesmos, intencionalmente, exercícios de democracia. Mas só podem continuar existindo se o ambiente democrático for preservado.
Não há prosperidade sustentável fora da democracia. Não há redes que resistam ao autoritarismo. Isso não é romantismo, é uma constatação empírica que Levitsky e Ziblatt documentaram com precisão em Como as Democracias Morrem: regimes autoritários não nascem de golpes dramáticos, mas da erosão lenta e cotidiana das normas, das instituições e da confiança pública. Erosão essa que tem encontrado nas redes sociais e na desinformação um motor potente.
Podemos e devemos falar sobre o voto: não sobre em quem votar, mas sobre por que votar importa, sobre como votar é um ato de resistência histórica para tantas das comunidades que atendemos.
Se a democracia é a condição para que esse trabalho exista, fortalecê-la não pode ser uma tarefa externa ao CIEDS. É parte daquilo que somos e daquilo que escolhemos fazer todos os dias.