Para jovens em situação de vulnerabilidade, garantir o acesso ao ensino superior é apenas parte do desafio. Permanecer na universidade, concluir a graduação e conseguir espaço no mercado de trabalho formal pode exigir apoio contínuo e soluções integradas.
O projeto Atuários do Futuro nasce justamente no encontro de duas pontas de um desafio. De um lado, o setor de seguros brasileiro enfrenta a escassez de profissionais qualificados em áreas altamente técnicas, como a atuária. De outro, muitos jovens em situação de vulnerabilidade encontram dificuldades para permanecer na universidade, especialmente em cursos exigentes e pouco conhecidos.
Ciências Atuariais é a área que utiliza matemática, estatística, probabilidade e finanças para analisar, gerenciar e precificar riscos e incertezas. Esses profissionais atuam principalmente em seguros, previdência e mercado financeiro, ajudando empresas e instituições a se prepararem para eventos futuros e protegerem pessoas e patrimônios.
A demanda por esses profissionais tende a crescer. Segundo projeção da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), o setor segurador brasileiro deverá crescer cerca de 8% em 2026, com destaque para segmentos como seguro garantia, automóvel, habitacional e transporte. Esse cenário amplia as oportunidades de carreira e renda em uma área estratégica da economia.
É nesse contexto que o projeto Atuários do Futuro foi criado. A iniciativa é desenvolvida pela CNseg, em parceria com o CIEDS e a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com o objetivo de apoiar a permanência e o desenvolvimento acadêmico, pessoal e profissional de jovens em situação de vulnerabilidade matriculados no curso de Ciências Atuariais da universidade.
Iniciado em outubro de 2025, o projeto segue até dezembro de 2026, acompanhando os estudantes em um momento decisivo de suas trajetórias.
Um cenário de desafios para inclusão e permanência
A iniciativa também dialoga com um cenário desafiador de acesso e permanência no ensino superior. Segundo o Mapa do Ensino Superior no Brasil 2025, a taxa de desistência no ensino superior brasileiro chega a 41%.
Entre estudantes autistas, os desafios são ainda maiores. Dados do Censo da Educação Superior 2024 (MEC/Inep) indicam que apenas 0,8% dos universitários no Brasil são autistas, evidenciando barreiras importantes de ingresso e permanência. Entre adultos autistas com mais de 25 anos, apenas 15,7% concluíram o ensino superior, segundo o IBGE.
Estimativas apontam ainda que cerca de 15% dos adultos autistas estejam empregados no país, apesar de a legislação reconhecer o autismo como deficiência e prever políticas de inclusão. Ambientes pouco adaptados, preconceito, falta de acolhimento institucional e dificuldades de acesso a apoio especializado seguem afastando talentos do ensino superior e do mercado de trabalho.
Guilherme Dias: quando apoio vira base para seguir
Uma dessas trajetórias é a de Guilherme Dias, 26 anos, morador da zona leste de São Paulo. Com Transtorno do Espectro Autista e TDAH com nível de suporte 2, ele ingressou no curso de Ciências Atuariais da UNIFESP em 2020, pouco antes da pandemia. Ao longo da graduação, enfrentou dificuldades acadêmicas, emocionais e financeiras que o fizeram pensar em desistir diversas vezes.
“Eu tenho capacidade. A pessoa autista tem muita capacidade, desde que seja colocada em uma área de interesse dela. Mas é preciso apoio, é preciso que segurem na mão dela para que seja possível desenvolver suas habilidades. Quando isso acontece, ela pode até se sobressair em relação aos demais. É preciso olhar para essas pessoas, olhar para as habilidades delas. É um pouco do que esse projeto faz”, conta Guilherme.
Vindo de uma família de baixa renda, Guilherme mora com a avó, que realiza sessões frequentes de hemodiálise. Até recentemente, o acesso de Guilherme a terapias essenciais, como acompanhamento psicológico e terapia ocupacional, acontecia apenas pelo SUS, com longos períodos de espera.
Ao ingressar no Projeto Atuários do Futuro, em outubro de 2025, essa realidade começou a mudar. Em poucos meses, a bolsa-auxílio permitiu iniciar terapias fundamentais para seu desenvolvimento, contribuir com despesas médicas da avó e garantir condições básicas para seguir na universidade. Pela primeira vez desde que entrou no curso, Guilherme conseguiu adquirir um caderno adaptado para pessoas autistas.
“O projeto ajuda a gente na base, que é essa parte financeira. É a base pra tudo”, resume.
Hoje, próximo de concluir a graduação, Guilherme sonha em atuar na área de seguros de mercadorias, como seguros de automóveis e produtos, e destaca a importância das experiências formativas do projeto, como visitas a empresas como a B3 e a expectativa pela fase de mentoria.
Metodologia e etapas de desenvolvimento
Nossa metodologia tem início com um processo de seleção e diagnóstico individual, que mapeia condições socioeconômicas, trajetória acadêmica e necessidades específicas dos participantes. Essa etapa permite um acompanhamento personalizado e mais eficaz ao longo do projeto.
A partir desse diagnóstico, os estudantes percorrem uma trilha estruturada de desenvolvimento socioemocional, com encontros conduzidos por especialistas, focados em competências essenciais para a vida acadêmica e profissional, como inteligência emocional, organização, comunicação, pensamento crítico e resolução de problemas.
Outro eixo central é a construção de planos de carreira com apoio de mentorias especializadas no setor atuarial. Essa frente busca promover um processo qualificado de reflexão sobre objetivos, interesses, potencialidades e possibilidades de inserção profissional, permitindo que os estudantes construam trajetórias mais intencionais, realistas e conscientes.
O projeto também inclui visitas institucionais a empresas do setor e atividades de ampliação de repertório cultural, fortalecendo o acesso a redes profissionais, o senso de pertencimento e a preparação para diferentes contextos de trabalho.
Ao integrar apoio financeiro, formação técnica e desenvolvimento humano, o Atuários do Futuro contribui para a redução das desigualdades, criando condições para que jovens em situação de vulnerabilidade social não apenas concluam a universidade, mas também ampliem suas possibilidades de inserção no mercado de trabalho. Com isso, o projeto pretende favorecer processos de geração de renda e mobilidade social.
O papel do CIEDS e o impacto social previsto
No Atuários do Futuro, o CIEDS é responsável pela gestão e execução do projeto, atuando de forma integrada no apoio aos estudantes. Entre as principais ações estão:
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Pagamento de bolsas-auxílio mensais no valor de um salário mínimo;
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Elaboração de planos de carreira personalizados;
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Condução de sessões de apoio e desenvolvimento socioemocional;
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Planejamento de atividades de ampliação de repertório cultural;
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Gestão administrativa, financeira e de monitoramento do projeto.
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Apoio operacional e reembolso de despesas do Cursinho Popular Helena Pignatari, da UNIFESP.
Mais do que garantir a permanência universitária, o Atuários do Futuro fortalece perspectivas profissionais e contribui para reduzir desigualdades estruturais no acesso ao ensino superior e ao mercado de trabalho.
Ao investir em cuidado, escuta e oportunidades, o projeto reforça o compromisso do CIEDS com a construção de trajetórias mais prósperas.