Trabalhando a autoestima e valorização

19/01/2015

A adolescente Glacy Correa da Silva tem apenas 15 anos, mas muita história para contar. Moradora do bairro da Armênia, na Zona Norte de São Paulo, ela só conheceu os pais depois dos 6 anos.

 Antes, foi criada pelos avós, porque os pais eram muito jovens. Sua mãe engravidou aos 14 anos, quando o pai tinha 17. Aos 12, Glacy perdeu o avô.

Um ano depois, a avó foi diagnosticada com câncer de mama. "Eu achei que perderia minha avó e fiquei muito mal, porque ela é a única pessoa que eu tive na minha vida", conta. Logo depois, Glacy descobriu que tinha pedra na vesícula e precisou se submeter a uma cirurgia. Nessa mesma época, ela estava ingressando no projeto Raízes do Futuro e encontrou ali os elementos de que precisava para se fortalecer e, principalmente, resgatar sua autoestima.

Antes de ingressar no projeto, ela estudava de manhã, fazia curso de nutrição à tarde e trabalhava como auxiliar de escritório à noite. "Havia dias que eu não dormia". Ao entrar para o Raízes do Futuro, Glacy começou a pensar em fazer cursos mais voltados às áreas em que ela pretende atuar profissionalmente. Hoje ela está no segundo ano do ensino médio e faz curso de assistente administrativo no Instituto Dom Bosco. Como a avó já está recuperada e sustenta o lar com sua aposentadoria, Glacy saiu do trabalho e está focada apenas em seus estudos.

Glacy se define como uma pessoa persistente, simpática e positiva. "Não tenho pensamentos negativos". Ela conta que antes não conseguia identificar suas qualidades, e o projeto Raízes do Futuro a ajudou, principalmente em uma dinâmica em que as amigas disseram que ela era uma pessoa sincera, alegre e companheira. "Nós aprendemos a ser pessoas melhores e nos conhecer. Saber o que queremos e quem somos. A gente precisa parar para pensar nisso e se descobrir", relata. "Percebi que eu poderia ser melhor, não só para as outras pessoas, mas para mim mesma", completa ao se lembrar das atividades em equipe.

Por meio das oficinas oferecidas pelo Raízes do Futuro, os adolescentes aprendem a construir seus projetos de vida, que começam a ganhar forma, conforme os participantes identificam suas vontades e vocação, e aproveitam espaços e contatos com pessoas que os apoiam nesse processo.

Com a descoberta de sua própria identidade e com a autoestima elevada, a jovem sonha com voos mais altos e já faz planos para cursar uma graduação. "Quando eu terminar este curso no Instituto Dom Bosco, vou fazer psicologia. Tenho um amor por isso e sempre tive curiosidade de saber por que as coisas acontecem. A psicologia é isso. É você entender e saber por que as coisas acontecem daquela maneira. É você entender e ajudar as pessoas. É uma coisa que gosto e quero para a minha vida", afirma.

Viajar também está nos planos da jovem: "Também quero fazer inglês, conhecer a África e as histórias das crianças de lá. Sempre quis isso. Infelizmente ainda não tive essa oportunidade, mas eu quero muito viajar para ajudar as pessoas", diz com entusiasmo, relembrando uma frase do avô, que é sua fonte de inspiração: "Se você trabalhar com o que você gosta, você não vai ter um dia de trabalho", lembra.

Glacy, além de ter uma visão clara sobre ela mesma e sobre o que quer para seu futuro, também tem uma visão particular do mundo. "Nós temos pontos negativos e positivos, mas não é o mundo que está errado. O mundo não tem culpa. Se as pessoas soubessem o poder de sermos mais humildes e ajudarmos o outro, o mundo seria muito melhor", diz. E conclui mandando uma mensagem às pessoas: "Independentemente da situação, nunca desista do seu sonho. Jamais. Você tem que ter certeza e confiança que você consegue", conclui.

Raízes do Futuro – O projeto Raízes do Futuro faz parte de uma parceria global entre o UNICEF e o Barclays, que tem como objetivo capacitar 74 mil jovens em situação de vulnerabilidade em seis países: Brasil, Egito, Índia, Paquistão, Uganda e Zâmbia, de forma a desenvolver habilidades e competências para auxiliá-los a atingir seu pleno potencial no mundo do trabalho e na vida.

No Brasil, as ações estão sendo realizadas, desde novembro de 2012, em parceria com cinco organizações não governamentais que atuam na área: Associação Beneficente Vivenda da Criança, Instituto Dom Bosco, Instituto Reciclar, Instituto Rugby para Todos e Sociedade Benfeitora do Jaguaré. A coordenação técnica é do Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento (Cieds).

Autor: Rafael Biazão