“Sustentabilidade das UPPs”

13/09/2013

Dialogadores debatem os prós e contras das estratégias das UPPs nas comunidades do Rio.

O Diálogos Sociais da última terça, 10, realizado no Sesc de Copacanaba no Rio, debateu o que é a pacificação, frente às  diferentes visões dos dialogadores e como é feita a política de segurança das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPS) nas 33 comunidades do Rio de Janeiro, antes totalmente dominadas pelo tráfico.

A UPP é um projeto do governo do Estado do Rio de Janeiro, implementado pela Secretaria de Segurança Pública desde 2008. A primeira UPP foi construída no Morro Santa Marta, em Botafogo, posteriormente, novas unidades foram instaladas na Cidade de Deus, no Batan, no Morro Pavão-Pavãozinho e no Morro dos Macacos. As UPPs têm o objetivo de tomar as áreas do tráfico de drogas e ajudar na reconstrução de um ambiente de paz para os moradores das comunidades em que atua e dos bairros do entorno.

Apesar dos avanços conquistados, como, por exemplo, a diminuição de homicídios no Rio de Janeiro de 43,9%, em 2008, para 34,6% em 2009, a UPP ainda enfrenta problemas e desafios.  Arquiteto de políticas públicas, Pedro Henrique de Cristo, fundador do projeto Cidade Unida, explica porque mais de 50% dos moradores das comunidades pacificadas não confiam nas UPPs.

“A pesquisa que fiz entre 2010 e 2011 mostra que os moradores não confiam nas UPPs. Ambos possuem uma relação de distanciamento, onde o diálogo apenas se dá por meio do conflito. Os policiais não conhecem a cultura das comunidades que atuam, gerando desconforto”, afirmou Pedro.

Com previsão de instalação de 40 UPPs até 2014, o programa vem promovendo uma valorização dos imóveis em 80%, afetando não só os moradores das comunidades pacificadas, como também o bolso de quem pretende morar nas redondezas.

“O Rio tem uma característica especial, diferente dos outros países. As favelas são localizadas em meio à estrutura central da cidade. Como o custo de vida nas regiões pacificadas aumentou, muitos moradores estão migrando para a baixada e subúrbios do Rio”, concluiu Pedro.

Alan Brum, morador do Complexo do Alemão e fundador da ONG Raízes em Movimento, com sede na comunidade, foi o segundo dialogador. Ele diz que a UPP é insustentável e afirma que o governo investiu 1 bilhão no Complexo do Alemão, 30% do território não tem saneamento básico.

“As secretarias não dialogam entre si para criar políticas públicas intersetoriais e pensar investimentos efetivos para as comunidades”, disse.

Alan também destaca o fato do morador ser tratado como consumidor. “O cidadão é tratado como consumidor. Agora os moradores de comunidade têm que pagar impostos, luz e água. A economia local se desestrututou, devido à criação dessas e outras taxas”, concluiu.

Estratégia da Prefeitura do Rio, visando à integração urbana, social e econômica, a UPP Social, por meio de convênios e parcerias firmados entre diferentes segmentos do poder público, iniciativa privada e Terceiro Setor, tem por objetivo instalar projetos sociais, culturais e esportivos nas comunidades pacificadas. Alan afirma que não vê a UPP Social atuando dessa maneira no Complexo do Alemão.

“A mídia traz a imagem do policial próximo dos moradores, que dá aula de reforço escolar, esportes, etc, enquanto isso não é feito, na real. O policial e os moradores não têm proximidade alguma”, completou.

A fala de Alan vai ao encontro dos dados apresentados por Pedro Henrique, quando números apontam que moradores e policiais não interagem no dia-a-dia, mas sim nos momentos de conflito.

O Diálogos Sociais é um projeto do CIEDS, em parceria com o SESC, que promove debates, onde os dialogadores refletem coletivamente sobre determinado assunto, a partir de pontos de vista distintos, visando à troca e à partilha de conhecimento.

O próximo encontro acontece dia 10 de outubro. O tema abordado será “Participação Popular”.

Autor: Ana Paula Santana