O doce sabor da autonomia

25/10/2019

Pacientes de um Centro de Atenção Psicossocial produzem e vendem sua própria geleia

Diferente do que muitos pensam, a rotina de um lugar que cuida de pessoas com transtornos psiquiátricos não é somente para medicações e sessões de psicoterapia. A assistente social Melissande Cristine Alves e tantos outros profissionais mostram que é possível sair do tradicional e inovar na saúde mental, proporcionando autonomia, inclusão e geração de renda aos pacientes. Junto a outras duas funcionárias, ela montou uma oficina de culinária no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Bispo do Rosário, onde os usuários elaboraram um produto de marca única: a geleia Arte Doce do Bispo.

“Inicialmente, nosso foco foi trabalhar habilidades importantes do dia a dia, que muitos perderam após longos anos de internação em hospitais psiquiátricos, como autocuidado, trabalho com a higiene e manuseio dos alimentos, enfim, tudo que possa ajudar na independência deles. A atividade também contribuiu para que tenham maior interação, por conta dessa relação potente que a comida tem de aproximar as pessoas”.

Todas as sextas-feiras, pela manhã, a assistente social Melissande reúne esses usuários para preparar receitas como iogurte, brigadeiro, quiche, pastéis, bolos, até caldos e suco verde feitos com vegetais da horta orgânica na unidade. Em seguida, eles vendem essas delícias pelo entorno do CAPS, que fica em Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro.

“A gente começou muito sem crédito, pois quando as pessoas se davam conta de que pacientes psiquiátricos faziam as comidas, ficavam receosas. Elas achavam que os alimentos não eram preparados de maneira adequada. Precisávamos de muita paciência para explicar que temos muito cuidado com a higiene e que tudo é confeccionado com muito cuidado e amor”.

Depois de vencerem a barreira do preconceito, os usuários da oficina conseguiram provar que são ótimos na cozinha. Tanto é que criaram até cartão fidelidade para os principais clientes. Melissande percebeu o crescimento do projeto e incentivou-os a dar um passo adiante, dando a ideia de criarem um produto único, que fosse a “cara” do CAPS Bispo do Rosário. Após uma votação, os pacientes escolheram produzir geleias. 

Eles participaram de todo o processo. Decidiram fazer a geleia em três sabores: pimenta, morango e goiaba. Elaboraram também a embalagem do produto, a imagem da célebre figura que dá nome à unidade segurando uma colher de pau e usando um chapéu de cozinheiro. O nome não podia ser mais representativo: Arte Doce do Bispo. “Não é só porque a gente produz algo doce, mas também pelo jeito de se produzir, pela doçura que está em torno da nossa oficina”, explicou Melissande.

Aquilo que começou de maneira despretensiosa, segundo a própria assistente social, acabou virando uma oportunidade de geração de renda. “Agora, eles não só tem independência no que fazem, mas também no que ganham. Quando dividimos os lucros, eles já ficam animados, dizendo que é o dia de receber. A maior parte do dinheiro ainda vai para comprar o material para produzir a próxima leva de geleias, mas o que arrecadam já é suficiente para que se sintam motivados a fazer o negócio crescer cada vez mais. É incrível como a autoestima deles está cada vez maior”.

A demanda vem aumentando exponencialmente, tanto é que muitas pessoas ficaram com gostinho de “quero mais” quando, na semana passada, os pacientes fizeram pastel de Romeu e Julieta com a geleia de goiaba da Arte Doce do Bispo. “Várias pessoas aqui da unidade pediram para reservar o pastel e acabaram nem provando porque acabou muito rápido, eles venderam tudo lá fora”, contou Melissande. 

Os produtos da oficina já fazem tanto sucesso que já ultrapassaram os muros do CAPS. Recentemente, seus integrantes receberam convite para participar de outros eventos da rede municipal de saúde. “Outros dois centros de atenção vão comemorar seus aniversários em breve e nos convidaram para montar uma barraca e vender nossa geleia”. 

O efeito positivo da iniciativa de Melissande e seus colegas já pode ser visto nos pacientes. “A autonomia que a gente pretendia quando criou a oficina já é realidade em muitos casos, como a de um usuário que não sabia cozinhar e, hoje, replica as receitas que aprende aqui para a sua família”. Melissande também menciona outra paciente: neste caso, ela já vendia comida, mas aproveitou a oficina para aprender mais sobre esse ofício. “A paciente nos agradeceu, disse que aprendeu muitos macetes, por exemplo, como produzir e armazenar os alimentos corretamente, além de como tirar uma foto mais bonita do produto dela”.

Quem quiser encomendar a geleia ou acompanhar a produção dos participantes da oficina, basta seguir a conta no Instagram @arte_doce_do_bispo e entrar em contato com eles via direct. A gestão dos CAPS, incluindo o Bispo do Rosário, é feita pela parceria entre o CIEDS e a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. 

Autor: Karina Rivera