Notas sobre uma Viagem

26/03/2020

Uma crônica pelo olhar de quem cuida e reintegra a partir dos Serviços Residenciais Terapêuticos

No salão principal do Hotel Recanto das Águas, uma mulher nos pergunta: quem são vocês? De qual instituição vocês são? Enquanto isso Luciana apresentava a nossa interpeladora à todos que ali estavam. 

Quem nos pergunta? Quem somos naquele contexto? Qual instituição pertencemos? Quem é Luciana? Perguntas-hospedes neste final de semana na Serra de Teresópolis. 

No primeiro tom de conversa, insisto: Luciana fala para ela como é a sua casa. Luciana descreve sua casa por pessoas, nomeia a todos.  Me pede com o olhar para ser falada por mim – sempre falada por seu diagnóstico, por sua história de internação, por seus prontuários, por outros. 

A mulher insiste em entender: ela mora em uma casa com outras pessoas?

 A essa altura Luciana já havia a seduzido. Mais uma vez pergunta: "eu posso visitá-la?" e dirige a mim os olhares-perguntas. Insisto com Luciana: ela pode te visitar, o que você acha disso? Luciana sem demora responde, é hoje? Rimos todas, a mulher, mais confusa.

Percebo a confusão e com necessidade estratégica, peço licença a Lucina, peço licença aos moradores dos Serviços Residências Terapêuticos para falar por eles e com eles. 

Talvez de longe somos um grupo de 14 pessoas, que arranca olhares por onde passamos, seja pelo número, pela diferença marcada nos aspectos físicos e comportamentais, pela falação da mulherada maioria, pela identificação de divisão no grupo daqueles que cuidam, e os que são cuidados. Estamos na piscina, na recepção, nos jogos, nas selfs, no restaurante e na música, nas risadas altas, na cachoeira, estamos na trama. 

De perto, também  somos 14 pessoas, 6 moradores do Serviço Residencial Terapêutico – equipe de segmento do Centro de Atenção Psicossocial Dircinha e Linda Batista mais 8 cuidadores. Entre uma pergunta e outra sobre quem somos, elogios ao nosso trabalho: que bonito! Que dedicação, isso é público!? SIM! É público, é SUS! 

Para alguns um passeio, uma viagem, um favor, um ato de bondade, uma caridade. 

Para os moradores, estranhamento total daquele espaço, primeira viagem, aperto e parada de estrada, compra de malas, primeiro banho de piscina, banho de sol em uma cadeira confortável, conviver com bichos, dentre várias outras "primeiras-vezes," pela chance de ser hospede, cliente, está nessa trama.

Para a equipe, algo novo, viajar,  falar sobre o tema do que é viajar e o que é necessário para tal, organização de dinheiro e prestação de contas, divisão dos quartos – quem fica com quem sobre qual critério, vinculo. Manejo de crise na força do braço e medicação, reunião de equipe para reorientar nosso olhar e cuidado naquele novo espaço. Atenção, tensão, diversão, aposta, afeto, desejo, trabalho. 

Sob qual chão-instituição vivenciamos  tudo isso, principalmente  esse paradoxo de insistir para ser apenas uma viagem de final de semana e não ser apenas uma viagem de final de semana. 

Sob o chão de uma Política Nacional de Saúde Mental Pública, orientada transversalmente por nome grande chamado desinstitucionalização. 

Para tal feito necessitamos de muitas mãos. Esse trabalho sofisticado, bonito, clínico, que não ganha o apelo dos programas de domingo, pois não é transmitido na mídia, não é privilégio de uma equipe, mas de muitas, espalhadas pelo Brasil. Especificamente, falo da experiência do município do Rio de Janeiro. 

Trabalho constantemente atacado, recentemente pelo financiamento e suporte clínico ofertado pelas equipes dos CAPS. 

Essas equipes, com todas as suas fragilidades, gritam e suportam conosco que o hospício não é mais o lugar, que eles/equipes,  precisam ser o lugar; aberto, territorial, com liberdade de ir e vir, que os outros precisam ser lugar, que a família precisa ser lugar, que viajar é lugar, que trabalhar é lugar, que amar é lugar, que a vida e a cidade são lugares.

Fundamentalmente essas equipes são pessoas que consideram e incluem na sua caixa de ferramentas, o vínculo, o afeto, a transferência com seus paciente-clientes-usuários. E ainda bem que essa não uma invenção barata minha ou da Saúde Mental apenas. 

Já caminhamos alguns quilômetros para saber quantos outros podem movimentar o tratamento clínico, esse conceito-ferramenta: VÍNCULO.

Quem nos pergunta? 
- A mulher-hospede-sociedade, todos os dias, nos mais variados atos.

Quem somos naquele contexto? 
- Hospedes-trabalhadores e usuários da Saúde Mental Pública 

Qual instituição pertencemos? 
- Sistema Único de Saúde – Programa Serviço Residencial Terapêutico do município do Rio de Janeiro.

Quem é Luciana?
- Hospede do hotel Recanto das Águas, moradora do SRT/Turiaçu, usuário do CAPS. E muitas outras coisas que não poderia continuar descrevendo pela falta de capacidade. 

PS: A mulher pegou o número da casa de Luciana para combinarem um café.


Texto escrito pela Débora Félix a partir da sua atuação e vivência como Coordenadora do CAPS II Dircinha e Linda Batista.

Os Serviços Residenciais Teraêuticos (SRT) asseguram o cuidado integral e a qualidade de vida de pessoas com transtornos mentais que não possuíam suporte social e laços familiares. Através da Secretaria Municipal de Saúde, com a gestão compartilhada do CIEDS, provê moradia em casas assistidas, visando à reabilitação, à inclusão sociofamiliar e ao bem-estar por meio do incentivo à autonomia progressiva​​​​​ dos usuários.

Autor: Débora Félix