Mais um direito: o trabalho

08/05/2018

O Ricardo, que atualmente reside no Condomínio RT Bandeirantes, tem o trabalho como uma das partes mais importantes da sua vida

Lá está o registro para uma das últimas namoradas: “Procurei o meu pedaço e encontrei. Acho que você tem razão por elogiar, dizendo que sou bonito, lindo e cheio de harmonia.” Onde Alexandre poderia encontrar um jeito mais bonito de ver a si mesmo?

Ele já engatou um novo romance, desta vez com uma vizinha da Vila. Mas tem suas queixas: a namorada é muito ciumenta, está sempre reclamando do seu jeito de conversar com as moças. E frente à ponderação de que ele, segundo a sua própria narrativa, é mesmo muito namorador, o rapaz ri com prazer, encantado. E pergunta: “Fazer o quê?”.

Lá fora, no meio do gramado sob o sol, um morador encontra um dos profissionais das casas e se lança num abraço alegre. Pepe continua a latir excitada com o movimento, e Alexandre convida as visitas para dar uma volta, conhecer a Vila. Hoje, o dia está cheio – chegou visita, tem que terminar o almoço, ainda tem a festa de Paulinho, namoro de tarde e tantas outras coisas pra fazer.

Mais um direito: o trabalho

Mais à frente, perto do Museu Bispo do Rosário, fica a cantina do Instituto Juliano Moreira, que é gerida pelos usuários da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), da Zona Oeste. A cantina, guardada sob a sombra das árvores, é bem movimentada, até porque não há muitas opções próximas às instalações administrativas do Instituto. Então, o trabalho pode ser bem intenso. Os usuários formam uma cooperativa social, que está inscrita no eixo de Estratégias de Reabilitação Social, por meio das Cooperativas Sociais, dos Empreendimentos Solitários e outras alternativas de geração de renda.

Ricardo é um dos cooperativados e faz de tudo na cantina. Pesa, ajuda na cozinha e cuida da limpeza. Só falta cozinhar. Talvez chegue lá, porque para ele, o trabalho é fundamental.

É certo que, mais do que garantir aumento da renda, o trabalho é um instrumento de reabilitação e de reinserção, na medida em que gera vínculos, ampliando o universo de participação social. É o caso de Ricardo. Mas, na mesma medida em que os Serviços Residenciais Terapêuticos propõem a inserção dos loucos na cidade, é possível questionar os estigmas que os definem como incapazes de trabalhar. Muitas pessoas com transtornos querem e podem trabalhar, ainda que não sustentem integralmente as regras rígidas do mundo do trabalho que, aliás, são difíceis para todos.

Mas o trabalho é um direito, e o mundo do trabalho pode evoluir também. Podem-se criar novas regras para as tarefas das pessoas com deficiência, para o ofício de pais e mães de recém-nascidos, para o trabalho dos loucos. Quem não consegue suportar 40 horas semanais, quem não consegue conviver com barulho demais, quem tem que amamentar. O trabalho assistido, que provê apoio para pessoas com transtorno mental tem mantido muita gente empregada.

Vale lembrar que as parcerias com o mundo empresarial são as portas
para a inserção desses trabalhadores.

Ricardo sustenta bem o ambiente agitado da cantina. O trabalho é o eixo na organização da sua vida. Trabalha desde a adolescência e sabe que a ocupação silencia a angústia, aplaca a ansiedade. Mil vezes sair para trabalhar do que ficar em casa à toa, entregue aos pensamentos.

Autor: Nívea Chagas