Fotografia se torna instrumento de cuidado em residência terapêutica

18/05/2021

Gabriel de Alcântara, cuidador e fotógrafo, levou sua arte aos moradores

Além de cuidador plantonista do SRT (Serviço Residencial Terapêutico) Ilha do Governador, um dos 93 dos quais o CIEDS faz cogestão ao lado da Prefeitura do Rio de Janeiro, Gabriel de Alcântara também é fotógrafo. Certo dia, percebeu que a casa em que trabalha tinha muitos quadros e porta-retratos, mas só de moradores antigos. Dos atuais, havia apenas algumas fotos, também muito antigas. “Não faz sentido”, pensou. Resolveu levar sua câmera e o resultado foi transformador.

“Já vinha fazendo projetos de fotografia documental com idosos e moradores de rua. Nesse dia, decidi levar minha câmera para tentar fazer algum trabalho legal com eles. Foi uma novidade, eles pareciam que nunca tinham visto uma câmera, e provavelmente não tinham mesmo. Quando tirei ela da bolsa, ficaram curiosos e se juntaram”, conta Gabriel.

O momento é raro, já que os moradores, apesar de terem momentos carinhosos, também lidam com conflitos entre si, coisa de família mesmo. “Nesse momento que levei a câmera, essa essência familiar veio à tona. Todos se juntaram, queriam pegar, saber como funcionava. Fui mostrando e, no final, só queriam tirar foto. Não queriam que aquele momento acabasse. A gente percebeu que a fotografia foi muito terapêutica para eles.”

O tratamento é um dos tantos alternativos voltados para os residentes, que têm cuidadores como Gabriel e uma equipe multidisciplinar, com o olhar atento. O Serviço Residencial Terapêutico no município do Rio é o maior do Brasil, sendo uma referência no tratamento de pessoas com transtornos mentais, voltado particularmente a pessoas que estavam internadas em hospitais de lógica manicomial. Ao todo foram cerca de 680 profissionais envolvidos e aproximadamente 500 pessoas com transtornos mentais severos ou persistentes atendidas, ao longo do ano de 2020. O principal papel do CIEDS é garantir o funcionamento do SRT – no âmbito do SUS, através da cogestão técnica e administrativa junto a SSM/SMS-RJ. 

“Milhares de pessoas estavam internadas e a gente precisava cessar com aquilo. As estratégias que mais deram certo foram as de retorno familiar, de restabelecer vínculos. As residências terapêuticas são para casos em que as pessoas já estavam com relações familiares esgarçadas e não conseguiam mais voltar para casa. Precisavam de um lugar protegido para morar. Então, o SRT tem duplo caráter. Ao mesmo tempo que é serviço, porque tem cuidadores e técnicos de enfermagem, também é casa, porque as pessoas estão lá para morar. Tudo que acontece lá é sobre o que eles decidem sobre eles mesmos”, explica Leonardo Moraes, Coordenador de Projetos Sociais do CIEDS.

Hoje (18), Dia Nacional da Luta Antimanicomial no Brasil, a importância de reforçar os valores deste tipo de abordagem no âmbito da saúde mental, que valoriza o território e as relações sociais dos moradores, se torna ainda maior.

“O paradigma anterior previa que, se uma pessoa apresentasse transtorno psíquico, deveria ficar em isolamento para tratamento. Esse modelo era ineficiente. A pessoa não conseguia sair, não tinha melhora. Isso porque a lógica manicomial era menos de saúde e mais de controle social. Pessoas ditas desajustadas, com transtornos leves que apresentavam algum problema para a sociedade e até mulheres grávidas sem marido eram internadas. Era uma forma de higienizar a sociedade”, explica Leonardo.

Relação estreita com o território

Nesta nova lógica, o serviço de saúde está conectado ao território, às famílias e aos amigos da pessoa com sofrimento psíquico. “Precisa estar conectado à pessoa, entender as relações dela para, a partir disso, ajudá-la a se organizar mentalmente para que possa tocar sua vida dentro dos limites que tem. Isso é a atenção psicossocial: além de estar preocupado com a mente da pessoa, o tratamento também está preocupado com as relações sociais. Se a pessoa conseguir produzir relações saudáveis, vai ter mais recursos para autocuidado, para que possa pedir ajuda nos momentos de dificuldade. A perspectiva não é de cura. É de entender que a pessoa vai viver na sociedade como ela é. E cabe à sociedade entender as singularidades dela”, diz.

“A gente chama de uma casa híbrida. É uma casa como a nossa, com sofá, televisão, geladeira. Quando você entra, não diz que ali é um local de trabalho também. Eles circulam livremente, frequentam os comércios da região e conhecem muitas pessoas do entorno”, completa Gabriel, que conta ainda que um deles frequenta boteco da rua, tomando sua cerveja sem álcool. “Temos uma reunião de moradores que nos ajuda a ter uma visão maior do que eles realmente querem e ajuda eles a pensarem de forma abrangente o que eles querem.”

Gabriel é cuidador, mas tem uma relação de carinho com os moradores. “Às vezes, eles choram e é a gente que vêm abraçar. Quando estão em crise, pedem ajuda. Reconhecem que nós somos a estrutura deles. Foi muito gratificante poder fazer essas fotos deles. Eu não esperava que fosse ficar algo tão incrível”.

Pouco depois de fazer as fotos, Gabriel e os moradores ainda foram surpreendidos com uma triste notícia: Shirley, a única residente mulher do SRT, faleceu de problemas respiratórios. Para a emoção de todos os envolvidos, ao menos ela ficou eternizada no ensaio fotográfico de Gabriel. Um carinho e uma memória para colocar nos porta-retratos dos atuais e futuros moradores da residência terapêutica da Ilha do Governador.

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Crédito das fotografias: Gabriel de Alcântara

Texto por: Bruna Santamarina

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