A Consciência Negra, 50 anos depois, ainda é por cada dia!

17/11/2022

Leia o artigo de Aldeli Carmo, Gerente de Inclusão Social e Bem-estar

O tema da Consciência Negra é complexo de tal forma que, para sairmos do senso comum e o compreendermos em sua magnitude, precisamos envolver formas complexas para contrapor os distintos entendimentos, que ainda são marcados por vieses e atravessamentos, em uma produção social presente no cotidiano e determinante no modo como vivemos, e não apenas como uma questão que afeta um grupo social isoladamente. 
 

A própria existência do Dia da Consciência Negra é passível de debate e críticas, porque o fim da escravidão não foi uma liberdade concedida, e sim foi marcada por lutas e enfrentamentos. As críticas são para os processos que tentam colocar as reivindicações do movimento negro em um lugar menor, na medida em que os negros brasileiros formam a maioria absoluta da população, 56%, de acordo com o IBGE. Para este entendimento, o ponto de partida passa pela consciência que vai diretamente interferir em mudança de comportamento de toda sociedade até chegarmos na garantia de direitos para essa parcela da população. 

O rompimento com esse sentimento e vivência vem ganhando novas formas, mas ainda é longa a caminhada! 

Basta buscarmos o longínquo ano de 1971. Naquele ano, um grupo de jovens negros esteve reunido em Porto Alegre, pesquisando sobre a luta dos seus antepassados e questionando a legitimidade da assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888. Ao buscarem referências representativas, em Zumbi dos Palmares encontram a face mais real do negro no Brasil. Nascia, então, o 20 de novembro como o dia para ser lembrado, como o momento de relampejo de reflexões sobre o que é e como se formou a população negra no nosso país. 

Marcam Zumbi para dar destaque ao protagonismo da luta dos escravizados em liberdade e provocar reflexões sobre o racismo. Este momento também vem a fortalecer o movimento negro brasileiro e formar uma base para o Dia da Consciência Negra. 

Quase 50 anos depois desse encontro, o Senado brasileiro aprovou o projeto de lei que valida o dia 20 de novembro como feriado nacional e afiança a luta pela igualdade racial como contribuição para a maioria da população brasileira. Trata-se da PLS 482 de 2017, do então Senador Randolfe Rodrigues. 

Tivemos outras iniciativas, como esforços para emplacar as ações afirmativas, tal qual a reserva de vagas nas universidades e institutos federais (Lei 12.711/2012). São aspectos que devemos celebrar, mas que, a depender da leitura, soam como reparação. São formas de reparar questões históricas em que a população negra ficou em segundo plano e a história e a cultura do povo negro foram invisibilizadas. 

Somos maioria, mulheres e homens, mas ainda são poucos os que recebem melhores salários. São raros os que ocupam cargos de liderança no mercado de trabalho e na política. Nesse sentido, a reparação precisa ter mãos carregadas para a elevação da representatividade dos negros na política e em outros espaços de tomadas de decisão na sociedade. 

O Dia da Consciência Negra gera visibilidade para os povos negros, mas ainda não marca uma realidade de plena liberdade e garantia de direitos. 

As redes sociais explanam corriqueiramente o negro em segundo plano. As escolas raramente reconhecem os estudos sobre os povos negros como relevantes. Todos os dias, dezenas de jovens negros são dizimados, uma marca triste de violência. Mulheres e homens negros ganham menos em qualquer estatística anunciada. Ou seja, o cenário posto ainda pressupõe lutas, enfrentamentos, algumas conquistas, e requer resistências. 

As cenas brasileiras serão outras quando as pessoas negras estiverem mais engajadas, com inserção plena socialmente em outro lugar – naquele que marca uma identidade negra, com dignidade, oportunidade e cidadania. 

Acredito em novos tempos, nas raízes plantadas, nas manifestações, apoios e iniciativas que respeitam a diversidade, na pauta antirracista nas agendas públicas, até chegarmos no lugar da consciência ampla e das portas abertas esperançadas, da igualdade e da equidade racial. 

Somos feitos de forças, lutas e conquistas! 

Foto: Primeiro ato evocativo ao 20 de novembro, realizado em 1971, pelo Grupo Palmares, em Porto Alegre (Acervo Oliveira Silveira/Reprodução) 

Texto por: Aldeli Carmo

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