Nunca é tarde demais para perseguir um sonho

30/06/2020

Colaboradoras de CAPS relatam experiências ao decidirem voltar às aulas

Nem a distância, nem o trabalho, nem as obrigações em casa, muito menos a idade. Nada impediu Edileia dos Santos Ramos da Silva de realizar seu maior sonho: entrar numa faculdade e ter uma formação de nível superior. Essa foi a maior motivação dela, que já é técnica de enfermagem, para retornar às aulas, aos 49 anos, estimulada pela gestão do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) Profeta Gentileza, onde trabalha há 5 anos.

“Tem gente que diz ‘você já está velha, se aposenta como técnica’, mas isso não tem nada a ver. Na minha turma, só tem gente de idade. Sou casada, meu marido me incentiva muito. Moro longe da faculdade, faço o maior esforço, mas vale a pena”, conta Edileia.

O CIEDS, cujo propósito é promover soluções sociais que gerem maior confiança no futuro, teve um papel fundamental neste contexto, ao fortalecer a relação de trabalho, por meio de reuniões frequentes com as equipes de liderança, inclusive do CAPS onde Edileia atua, conforme relata Janaina Lins, Coordenadora de Projetos Sociais do CIEDS.

“Nós fazemos uma provocação junto aos coordenadores para o aprimoramento do trabalho. Conversamos com as equipes sobre processos, dificuldades. Se as equipes estiverem mais fortalecidas na ponta, toda a cadeia de trabalho tem um ganho importante”, explica Janaina.

Incentivada pela equipe do CAPS, Edileia teve, entre suas principais motivações para voltar a estudar, a necessidade de aprender e de fazer a diferença, algo que já havia percebido em suas primeiras experiências com atendimento psicossocial, em um estágio no Instituto Municipal Nise da Silveira, unidade de saúde mental no Rio de Janeiro, cuja cogestão é realizada pelo CIEDS em convênio com a Prefeitura do Rio.

“Sempre tive o sonho, mas nunca tive a oportunidade. Comecei a estudar muito tarde, fiz técnico em enfermagem. Adiei esse retorno à escola. Não voltei antes porque não tinha condições mesmo. Agora, é a realização de um sonho”, garante Edileia.

Chegou a ficar em dúvida entre Serviço Social e Psicologia. Acabou por escolher o primeiro curso, especialmente motivada por uma amiga assistente social que trabalha em um presídio do Estado do Rio de Janeiro. Apesar do caminho percorrido, ainda segue bastante interessada no campo da saúde mental.

“Tenho muita curiosidade de entender o porquê de muitas coisas. Achava que a psicologia poderia me ajudar nessa questão. Já fiz tratamento com psicóloga, acho uma profissão muito legal. [Os psicólogos] têm uma visão diferente, fazem a gente entender a vida de outra maneira. Nem sempre ‘A’ é ‘A’ e ‘B’ é ‘B’. Gosto muito de entender as pessoas.”

Ela conta que, certo dia, um morador da residência terapêutica na qual trabalha andava inquieto de um lado para outro, com olhar fixo e apontando para a geladeira. Ela ofereceu ajuda e disse que ele poderia abrir sua geladeira e pegar o que quisesse. Sorrindo, ele pegou um pedaço de bolo e comeu. Segundo Edileia, por meio da situação aparentemente simples e do retorno feliz do morador, ela percebeu a importância de ele exercitar o direito de apropriar-se das coisas.

Essa experiência , avalia Edileia, foi um exemplo do que a motivou retornar os estudos. “A partir desse pouco tempo que estou fazendo [as aulas], já estou entendendo melhor o trabalho. Vejo o que um assistente pode fazer, como pode ampliar o auxílio”.

Edileia não foi a única colaboradora do CAPS Profeta Gentileza que decidiu voltar às aulas. Motivada pelos resultados de um trabalho feito com dois moradores, na antiga gestão do CAPS, Clemilda Maria da Silva sentiu a necessidade de aprender e adquirir mais conhecimento. A escolha do curso veio a partir de estímulos da nova gestão, em sua maneira de conduzir e organizar o segmento. Ela também já enxerga resultados práticos em seu dia a dia. Ela relata, inclusive, que alguns moradores se sentem mais estimulados, com sua ajuda, a sair e estar em outros espaços da cidade, que não apenas a Residência Terapêutica.

Assim como as duas, há mais colaboradoras do CAPS  Profeta Gentileza que se sentiram incentivados a retornar às aulas. É o caso de Lucimar da Silva do Vale, que cursa Técnico de Enfermagem e Marcela Bernardino Lima, que faz especialização na Fiocruz, o que só comprova o que Edileia já sabia: nunca é tarde para perseguir o seu sonho.

Texto por: Bruna Santamarina

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