Farinha, açúcar e cuidado

23/12/2016

Oficina de biscoitos de natal com moradores dos SRTs ensina e é terapêutica.

Quando a porta da sala abriu e as pessoas começaram a entrar, não fazia ideia do quão divertida seria aquela manhã. Estava no Centro Municipal de Cidadania Rinaldo de Lamare para participar de uma oficina de biscoitos de Natal. Entretanto, não se tratava de uma oficina qualquer, pois seu público era mais do que especial: moradores e cuidadores dos Serviços Residenciais Terapêuticos - SRT.

Para quem não conhece, os Serviços Residenciais Terapêuticos são casas que trazem um novo formato de cuidado por meio do processo de desinstitucionalização de pacientes que há muito viviam em instituições psiquiátricas. Eles passam a morar junto com outras pessoas que passaram pela mesma experiência, sempre acompanhados de perto por cuidadores, técnicos de enfermagem e acompanhantes terapêuticos. O projeto é uma parceria de cogestão do CIEDS com a Superintendência de Saúde Mental da Prefeitura do Rio e propõe a inclusão cidadã e a autonomia dessas pessoas e de suas famílias.

O cuidadoso Ricardo Chevrand, um dos empreendedores premiados no projeto Shell Iniciativa Jovem, foi quem orientou a atividade. O Iniciativa Jovem é um projeto do Grupo Shell, executado pelo CIEDS, e oferece capacitação empreendedora, suporte e estímulo a redes de relacionamentos sustentáveis para que jovens desenvolvam seus próprios negócios. Ele deu lições sobre alimentação saudável, higienização pessoal e manipulação de alimentos enquanto fazia a massa, conversava e ria com os moradores.

“Essas oficinas devem ser bem pensadas e mais reproduzidas, para que tanto os moradores possam ter uma fonte de renda, como uma autonomia maior na cozinha e nas suas casas”, comenta Gabriele Chaves, acompanhante terapêutica que participou do evento.

A atividade aparentemente simples tornou-se terapêutica a partir do momento em que começamos a colocar, literalmente, a mão na massa. Estrelas, pássaros, borboletas e homens-biscoito povoaram a sala, devidamente decorados com confeitos e raspas de chocolate. Moradores e cuidadores soltaram sua criatividade em um exercício ao mesmo tempo lúdico e relaxante. 

Enquanto moldávamos a massa para fazer os biscoitos, também apreciamos a vista do alto prédio, que dava para a Rocinha e São Conrado. Era a primeira visita de muitos ali, inclusive a minha. A maior diversão, porém, ficou para o final, quando pudemos ver o resultado de nossas criações, saindo do forno e com um gosto maravilhoso.

“Nós aprendemos como fazer biscoitos e tivemos pessoas que foram muito respeitosas com a gente. Acho isso muito importante”, comentou um dos moradores enquanto degustava um biscoito. Outra moradora completou: “Para mim está sendo o máximo, nem sabia que existia um nutricionista. Adorei tudo e lembrei da minha infância”. 

A atividade foi coordenada por Rogerio Marins, Gestor de Projetos no CIEDS, fisioterapeuta e especialista em psicomotricidade. Segundo ele, “as oficinas de alimentação saudável são momentos únicos em que a integração dos moradores e a manipulação de alimentos podem ser o ponto de partida para novas formas de se perceber atuante e multiplicadores dentro das residências terapêuticas”. Em nossa conversa percebi que a oficina pode fazer muito mais do que auxiliar os moradores em sua autoestima e a exercitarem habilidades manuais. É uma oficina que empodera, traz cidadania e participação social.

Quanto a mim, a oficina de biscoitos de Natal ensinou não só como deixar mais doces as festas de fim de ano, mas também a entender o lado do outro, sua trajetória de vida e capacidades. Vi alguns moradores tendo dificuldades no início, mas procurando se divertir, exercer sua criatividade e, por fim, conseguindo superar suas barreiras. Vi também o quanto esse tipo de atividade, junto à moradia conquistada por essas pessoas, é importante, pois dá a elas um sentimento de pertencimento a sociedade e um sentido maior aos seus dias.

Entre conversas, risadas, farinha e açúcar, conheci pessoas incríveis e descobri uma outra forma de olhar para as coisas, mesmo que estas sejam coloridos biscoitos de Natal.

Texto por: Victoria Guimarães

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