O CIEDS viu em mim um ser humano antes de uma travesti

A resistência diária de Dandara

No início eu tinha muita dificuldade em falar que era travesti. Existem muitos rótulos negativos e eu rejeitava porque não queria ser aquilo que falavam. Quando conheci outra travesti, finalmente percebi que cada ser humano é único e eu não precisava ter medo.

Dandara

Eu tinha muitas oportunidades de emprego e depois que transicionei passou a ser limitado. Nunca consegui trabalhar em uma empresa privada, apenas em organizações da sociedade civil ou projetos sociais. Tive que me prostituir por um tempo por causa da dificuldade de conseguir um emprego formal.

Um dia estava ocorrendo uma ação da prefeitura em que agentes distribuíam camisinhas. Eu estava cansada daquela vida e acabei explodindo com a pessoa que veio falar comigo. Pedi ajuda. Assim acabei conhecendo o projeto Damas e o CIEDS, que o executava na época.

Tenho um carinho muito grande pela instituição. Muitos locais foram importantes para mim, mas lá foi o primeiro que eu trabalhei depois da transição de gênero e o primeiro em que não importava ser trans. Nunca sofri um preconceito sequer dentro do CIEDS.

Trabalhei com profissionais incríveis e me desenvolvi muito, mas o mais importante foi que eu enxergava ali uma família. Grande parte das vezes acabamos convivendo mais com nossos colegas de trabalho do que com a própria família em casa, então um ambiente bom, em que te querem bem, faz toda a diferença.

Lá foi o primeiro [local] que eu trabalhei depois da transição de gênero e o primeiro em que não importava ser trans. Nunca sofri um preconceito sequer dentro do CIEDS.

Trabalhei com profissionais incríveis e me desenvolvi muito, mas o mais importante foi que eu enxergava ali uma família. Grande parte das vezes acabamos convivendo mais com nossos colegas de trabalho do que com a própria família em casa, então um ambiente bom, em que te querem bem, faz toda a diferença.

Meus pais tiveram muita dificuldade em aceitar a minha travestilidade por causa dos rótulos. Fiquei três anos sem visitar a minha mãe, mas hoje eles veem que o que diziam não condiz com a minha realidade. Somos uma família em primeiro lugar e hoje conseguimos conviver superbém.

Hoje, o Brasil é o país que mais mata travesti e transexual no mundo, minha maior dificuldade diária é sobreviver.

Ser travesti é resistência, é uma forma de militância. A Dandara de anos atrás tinha muito medo, mas eu amadureci na marra e hoje não desisto de nada que quero fazer.

O futuro me assusta muito, mas tudo o que faço é pensando nele. Meu maior sonho é ser reconhecida pela minha arte e ter oportunidades por ser uma grande atriz. Graças à equipe do CIEDS sei que não estou limitada a ser travesti: sou um ser humano.

Dandara

Dandara é Coordenadora do Trans+Respeito, anteriormente Damas, que capacita homens transgêneros, mulheres transgêneros e travestis, visando ao mercado de trabalho. O projeto é uma iniciativa da Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (SMASDH) em conjunto com a Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual (CEDS Rio), no Rio de Janeiro.