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Monitoramento e avaliação

22/09/2017

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O sentido da avaliação para organizações sociais de base comunitária

Um dos grandes desafios das organizações sociais, em especial para as de base comunitária, é empreender esforços para um bom monitoramento de suas ações e uma boa avaliação dos efeitos de seus projetos. Aqui não estamos falando de avaliação de impacto¹  mas, de ter registrado, de forma organizada, as mudanças positivas produzidas pelas ações do projeto em seus beneficiários diretos.

Como mudanças positivas podemos destacar conhecimentos ampliados e adquiridos; competências e habilidades esportivas, profissionais e artísticas aprimoradas e desenvolvidas; melhoria nas relações familiares, sociais e comunitárias; adoção de hábitos saudáveis e ambientalmente sustentáveis, entre outros muitos efeitos que comumente os profissionais que atuam em projetos sociais conseguem identificar facilmente no convívio com seus públicos.

De fato, identificar o valor do projeto na vida de uma criança, de um jovem ou de uma comunidade, para quem está “na ponta” não é difícil. Este valor irá aparecer no dia a dia do convívio do projeto com seu público. O difícil é garantir um registro com cuidado metodológico que permita associar as mudanças identificadas às ações do projeto, além de mensurá-las permitindo visualizar o tamanho do benefício que o projeto proporcionou.

Entre as principais dificuldades estão: a falta de recursos para contratação de consultores de avaliação, considerando a realidade de baixos orçamentos  das organizações comunitárias; a baixa qualificação dos profissionais do terceiro setor no campo do monitoramento e avaliação; além da própria falta de cultura de avaliação das organizações que nunca colocaram monitoramento e avaliação como uma prioridade institucional.

Entretanto, dois aspectos vêm impactando no cenário do monitoramento e avaliação das organizações sociais. O primeiro é a seleção cada vez mais criteriosa, por parte de financiadores, de projetos com evidências de que promovem resultados. O segundo é a necessidade dos projetos sociais em responder para uma sociedade cada vez mais crítica e atenta que questiona e cobra mais do terceiro setor em um contexto de maior visibilidade dos problemas sociais, com destaque para o aumento da violência.

A construção de conhecimento a partir da avaliação

Independente do motivo pelo qual uma organização decide investir mais em monitoramento e avaliação, haverá sempre um rico ganho no campo da construção de conhecimento. Avaliações além de mensurar resultados permitem tanto conhecer mais sobre o público do seu projeto quanto sobre a eficiência e eficácia das opções metodológicas adotadas.

Conhecendo mais o público do projeto - Quando os processos de monitoramento e avaliação partem de uma boa linha de base que permita, no início do projeto, conhecer em que estágio o público direto das ações se encontra em relação a cada resultado que se espera atingir, temos a oportunidade de conhecer especificidades do público que são importantes para dar foco ou reorientar as ações do projeto. Da mesma forma, quando, no decorrer do projeto, os beneficiários participam do processo de avaliação das ações expressando como as estão compreendendo, aceitando e sendo por elas impactados conseguimos identificar diferenças por grupos de interesse, perfil, origem e outras características.

Muitas vezes os projetos sociais tendem a homogeneizar o público de suas ações como se todos os jovens e crianças fossem iguais,  se todos os pobres fossem iguais. Neste sentido, é fundamental as rodas de conversa avaliativas e grupos focais onde, de forma qualitativa, beneficiários possam se expressar mais livremente e manifestar suas visões, angústias e desejos sobre o projeto. Conhecer mais o seu público é fundamental para que a organização repense suas ações e as torne mais certeiras e bem aceitas.

Conhecendo mais sobre a eficiência e eficácia metodológica do projeto -  As metodologias dos projetos sociais com seus conceitos, técnicas e ferramentas precisam ser constantemente revistas. Por um lado, pelas mudanças naturais e cada vez mais rápidas do contexto social e, por outro, pelo avançar do conhecimento técnico e científico que identifica novos caminhos e soluções que precisam ser explorados de forma inovadora pelos projetos. Neste sentido, as avaliações desenvolvidas no decorrer do projeto - em alguns casos chamadas de avaliação de processo²  - são importantes para verificar se determinados métodos, de fato, conseguem ser bem aceitos pelos públicos e se são os mais adequados para determinados contextos, tempos e recursos disponíveis garantindo os resultados esperados.

Por isso, é fundamental que toda atividade do projeto seja avaliada pelos seus participantes. Eles consideram que a atividade foi bem conduzida ? consideram que a atividade contribuiu para ampliar seus conhecimentos ou sua forma de pensar sobre algo ? Se sim, sobre o quê ? O que consideram que foi mais significativo da atividade conduzida ? Acreditam que algo poderia ter sido diferente ? As respostas dos participantes para estas perguntas avaliativas ajudam tanto a perceber se a atividade conseguiu atingir o resultado esperado (eficácia) quanto se o esforço e recursos foram bem empregados e se compensam os resultados obtidos (eficiência). Com base nas respostas, tomamos a decisão de fazer as devidas correções de rota ou simplesmente validar estratégias metodológicas adotadas.

Repensar objetivos e rumos do projeto

Quando os processos de monitoramento e avaliação são utilizados para gestão de conhecimento do projeto social temos um rico material de estudo que nos permite rever não apenas os caminhos (métodos) mas também onde queremos chegar (objetivos). Ter claro onde o projeto pretende chegar com suas ações é fundamental para um bom êxito do projeto e sem esta visão clara - que deve ser compartilhada por todos do projeto - não será possível um bom desenho do processo avaliativo.

Os objetivos de um projeto representam as grandes mudanças que se pretende promover em determinada realidade ou contexto. Entretanto, contextos mudam e exigem também a mudança de objetivos. A escuta constante sobre o quanto nossas ações estão ou não contribuindo para mudar determinados contextos nos ajudam a perceber também o quanto precisamos rever estratégias e objetivos. 

Por exemplo, muitos projetos de fomento ao empreendedorismo e mundo do trabalho que sempre focaram seus objetivos no campo das aprendizagens, mediante avaliações realizadas junto aos seus públicos, identificam a necessidade de incorporar objetivos no campo das relações comunicacionais ou de ampliação de repertórios, como forma de ampliar suas chances no mercado de trabalho ou como empreendedor.

O fortalecimento da transparência e comunicação de resultados

Quando as organizações sociais investem na organização dos seus dados avaliativos e os utilizam para fazer uma boa comunicação de resultados para todos os seus públicos e parceiros (stakeholders), se está investindo na transparência da organização. No atual contexto internacional e nacional com a sociedade mais preocupada com o combate à corrupção, garantir bons processos de transparência tem sido uma necessidade urgente para a credibilidade das organizações sociais e do terceiro setor. 

A confiança do público é fundamental para a sustentabilidade das organizações que devem investir em esforços de comunicação que demonstram que efetivamente estão cumprindo com o que prometem. A utilização de métodos científicos de avaliação que garantam o rigor técnico no levantamento dos dados é fundamental para a idoneidade da avaliação.

A celebração de resultados e de esforços coletivos

Um dos principais problemas ao implantar uma cultura de avaliação ainda é o esteriótipo da avaliação como sinônimo de investigação e punição. Ou simplesmente ser considerada como parte de um processo burocrático que toma o tempo das pessoas e não muda nada. Além de garantir o retorno de toda avaliação tanto comunicando amplamente seus resultados analíticos para todos os envolvidos quanto tomando decisões a partir das informações levantadas, uma importante ação de desdobramento de uma avaliação aplicada é a celebração e partilha de resultados identificados. 

Quando partilhamos com nossas equipes o que conseguimos atingir com o fruto do trabalho do coletivo, fortalecemos o sentido da ação do grupo e sua confiança no trabalho realizado. A celebração pode ocorrer de diferentes formas. Pode ser uma carta encaminhada a todos os colaboradores, cartazes espalhados pela organização, um café da manhã coletivo, um comunicado em alguma atividade institucional, ou uma mera reunião de equipe. O importante é que todos possam visualizar os resultados e se sentirem co-responsáveis por eles. 

Os sentidos e razões são muitos para que organizações do terceiro setor implementem processos de monitoramento e avaliação. Mas, o principal será sempre qualificar ainda mais o trabalho que promove qualidade de vida para grupos excluídos da sociedade. As organizações sociais cumprem com um papel importante, em especial promovendo e garantindo direitos em territórios onde a desigualdade continua mantendo o ciclo da pobreza. A avaliação serve para fortalecer estas práticas e dar visibilidade para sua importância. Neste sentido, é importante que gestores e técnicos compartilhem desta dimensão e coloquem esforços tanto para aprimorar suas capacidades quanto para garantir a adequada implantação dos processos avaliativos. Assim, o sentido da avaliação não será apenas o da investigação e mensuração mas, principalmente, da transformação social.

 

¹ A definição de impacto varia de acordo com diferentes organizações e pesquisadores mas de forma geral trazem sempre a característica de resultado de longo prazo proporcionado por um ou mais efeitos diretos da ação de um projeto. Entre os conceitos mais citados está o presente no Glossário de Termos de Avaliação da OCDE que define impacto como ““Efeitos a longo prazo de uma intervenção de desenvolvimento, diretos ou indiretos, positivos e negativos, primários e secundários, intencionais ou não intencionais”. https://www.oecd.org/dac/evaluation/2754804.pdf

² De acordo com Cohen e Franco a avaliação de processo  “Determina a medida em que os componentes de um projeto contribuem ou são incompatíveis com os fins perseguidos. É realizado durante a implementação e, portanto, afeta a organização e as operações. Procura detectar as dificuldades que ocorrem na programação, administração, controle, etc., para serem corrigidas oportunamente, diminuindo os custos derivados da ineficiência. Não é um balanço final, e sim uma avaliação periódica”, (Cohen e Franco, 2008)

 

Referências bibliográficas

Cohen, E. & Franco, R. Avaliação de Projetos Sociais, 8. ed., Petrópolis, RJ:  Vozes, 2008.

Walker, R. Impacting Social Problems. Wrinting and evaluating international development projects. Brasilia, DF: EMAD, 2000.

Januzzi, P. Indicadores Sociais no Brasil - Conceitos, Fontes de Dados e Aplicações, 2. ed., Campinas, SP: Alínea, 2003.

 

Por José Claudio Barros, Mestre e Doutor em Ciência da Informação e Gerente de Programas do CIEDS.

 

 

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