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Residências Terapêuticas

29/08/2017

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Nossa experiência na implementação de RTs em parceria com a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro

A loucura, sob sua máscara mais impenetrável nos remete então àquilo que, em nós, permanece como núcleo inanalisável, é com este núcleo que estamos às voltas quando nossa interrogação se dirige ao outro. É naquilo que nos escapa do nosso ser que a loucura nos interpela.¹  

O CIEDS atua na articulação de redes para a prosperidade, entendendo prosperidade como mais renda, mais educação, melhor alimentação, mais saúde e acima de tudo confiança no futuro. A implementação das Residências Terapêuticas (RTs) no Rio de Janeiro têm sido uma oportunidade de concretização da missão organizacional e da contribuição para a construção de uma sociedade mais justa e mais democrática. Nesse artigo você poderá conhecer um pouco mais dessa experiência, quem são e o que pensam as pessoas que moram nas RTs.

O cenário atual da saúde mental no Brasil aponta os seguintes aspectos: a tendência de reversão do modelo hospitalar para uma ampliação significativa da rede extra-hospitalar, de base comunitária; o entendimento das questões de álcool e outras drogas como problema de saúde pública e como prioridade no atual governo; e a ratificação das diretrizes do SUS pela Lei Federal 10.216/01 e III Conferência Nacional de Saúde Mental.

Desde 2011 o CIEDS é parceiro da Superintendência de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e, a partir de 2015, gerencia os Serviços Residenciais Terapêuticos, que atualmente conta com 86 Residências Terapêuticas (RTs) e contemplam um universo de 464 moradores. Importa ressaltar que as RTs não são um serviço de saúde, mas espaços de morar, viver, articulados à Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e referenciados nos Centros de Apoio Psicossocial (CAPS), de forma interdisciplinar, conforme preconiza a Portaria 106/2000. A implementação do projeto pelo CIEDS se dá em uma perspectiva de interlocução e interação contínua com a Política de Assistência Social. 

As iniciativas de Residência Terapêutica (RTs) surgem na Itália em Trieste (na década de 70). No Brasil emergem na década de 90 e tiveram, preliminarmente, a função de demonstrar empiricamente que era viável substituir leitos de moradores de hospitais psiquiátricos por casas (residências) no espaço comunitário. São um espaço privilegiado na construção da autonomia de pacientes com longo período de internação psiquiátrica, sendo cotidianamente resgatadas a cidadania e sua identidade nas atividades diárias. As Residências Terapêuticas atualmente configuram-se como estratégias imprescindíveis para a desospitalização e desinstitucionalização de pessoas que passaram grande parte da vida dentro de um hospital psiquiátrico.

Diversos autores da área destacam que o processo de desinstitucionalização requer primordialmente uma mudança da relação social com o fenômeno da loucura. E a cidade é um espaço privilegiado para a reconstrução desses laços e produção de novos sentidos para a vida.

Porque é na cidade que acontecem as relações, as trocas e os encontros. Reconstruir uma nova maneira de conceber a loucura – habitar o mesmo espaço público pode devolver uma coexistência com o diverso – e promover a produção de vida, de sentido e de sociabilidade com a finalidade de produzir autonomia, cidadania ativa, emancipação e, acima de tudo, desconstruir a relação de tutela e o lugar de objeto que por muitas vezes, furta a possibilidade de ser sujeito (TORRE e AMARANTE, 2001).²

Ao olharmos para o conjunto de moradores das RTs no Rio de Janeiro observamos que 56% deles são homens, enquanto 45% são mulheres; 35% dos moradores vivem em RTs há mais de 05 anos, enquanto 65% dos beneficiários passaram a viver em RT nos últimos 05 anos; 78% dos moradores recebem algum tipo de auxílio, seja ele aposentadoria, pensão, benefício de prestação continuada, Bolsa Rio ou outra. 

O que dizem os moradores sobre as Residências Terapêuticas

Nós fomos perguntar aos moradores das RTs como eles percebem essa aproximação e como experienciam esse momento da vida. Obtivemos 43 respondentes, quase 10% do universo total, o que por si só já representa um avanço. Os respondentes têm em média 49 anos (idade informada). A maior parte deles não sabe responder por quanto tempo viveu em uma instituição psiquiátrica, dos que responderam a média é de 12 anos, sendo que encontramos o caso de um morador (entre os respondentes) que diz ter 58 anos e que viveu em uma instituição psiquiátrica por 30 anos, ou seja, desde os 28 anos de idade vive isolado da sociedade. Chama ainda a atenção a resposta de um morador que ao ser perguntado sobre quanto tempo viveu em uma instituição psiquiátrica respondeu: “a vida toda”. 

Ao ser perguntado sobre o que sentiu ao ser transferido para uma RT, a maior parte respondeu que agora tem liberdade para fazer suas próprias escolhas e que agora pode interagir socialmente e receber visitas em casa.

 

 

Ao falar de liberdade e de próprias escolhas, muitas vezes os moradores querem referir se  a questões simples, como em um relato uma moradora diz que: “agora, depois de muitos anos, posso escolher o que vou almoçar”.

Mais do que os números e resultados aqui apresentados observa-se que os moradores estão redescobrindo a vida e que dão valor a cada passo rumo à essa nova história e poder cozinhar, ver TV ou ter um cachorro, coisas simples em nossas vidas cotidianas, são para eles grandes conquistas no processo de ressignificação da própria história.

A interação, fator fundamental, para a produção de vida com qualidade, também aparece no topo das respostas, destacando uma real percepção de mudança de forma de relação com o outro.  Na sequência aparece a questão da privacidade e da cidadania.

As respostas, entretanto, chamam a atenção para um fato que merece cuidado da sociedade. A opção que teve menos adesão foi “que agora as pessoas me veem de uma forma diferente”, deixando claro que ainda temos o desafio de ressignificar e reconstruir uma concepção sobre a loucura. É preciso sensibilizar cotidianamente a vizinhança para a coexistência e a aceitação do diverso. A invisibilidade ou estar fora do alcance dos olhares do outro, não vai fazer com que o sofrimento psíquico deixe de existir, muito pelo contrário, talvez seja nas relações cotidianas, na acolhida, no cuidado, no diálogo que ele possa diminuir.

Ao serem perguntados sobre o que achavam que poderia fazer com que sua vida amanhã fosse melhor do que é hoje, a maior parte afirma que é ter uma casa própria. Mas o maior destaque nessa pergunta foi que ninguém respondeu que desejaria voltar para uma instituição psiquiátrica. 

 

 

A resposta a essa pergunta aponta que os moradores começam a construir novos planos de futuro, o que é muito importante nesse processo de ressignificação e ressocialização e que voltar para um modelo hospitalocêntrico, isolado, não é uma opção.

Destacamos aqui um conjunto de desafios que precisam ser continuadamente enfrentados para potencializar cada dia mais os resultados que vem sendo obtidos na implementação dessa Política: (a) superação do paradigma da doença e da hospitalização como único recurso viável; (b) implementação de uma lógica de cuidado em detrimento a uma propositura de cura; (c) sensibilização dos familiares quanto à efetividade do processo; (d) interlocução com os serviços públicos do território visando garantir uma integralidade no atendimento; (e) formação técnica dos profissionais que atuam nos serviços; (f) sensibilização das vizinhanças; (g) estigmatização da sociedade em relação as pessoas com transtornos mentais.  

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, saúde mental é um estado de bem-estar no qual o indivíduo é capaz de usar suas próprias habilidades, recuperar-se do estresse rotineiro, ser produtivo e contribuir com a sua comunidade, a experiência das RTs no Rio de Janeiro tem demonstrado que temos avançado muito nesse sentido.

O CIEDS tem aprendido muito nessa caminhada, aprendido na relação com a equipe, aprendido na relação com os moradores, com a vizinhança. A metodologia de atuação tem preconizado um fazer com base no conhecimento, na cooperação entre os atores e no apoio para que os moradores tenham instrumentais que os tornem cada vez mais empoderados e reconhecidos como sujeitos de suas próprias histórias. 

¹ Manonni, Maud. O psiquiatra, seu “louco” e a psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1970, p. 25.
² Torre, E. H. G., & Amarante, P. (2001). Protagonismo e subjetividade: A construção coletiva no campo da saúde mental. Ciência, Saúde Coletiva (Rio de Janeiro), 6(1)

Por Fábio Müller
Diretor Executivo do CIEDS
 

 

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