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Os Jovens e a Confiança no Futuro

24/07/2017

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Uma frase recorrente em toda a história da humanidade é que os jovens são o futuro da sociedade, entretanto pensar de que modo esse futuro se constrói e em que perspectiva temos apoiado a juventude a construir as bases para o desenvolvimento desse futuro é uma agenda preponderante nos tempos atuais. 

O Brasil possui atualmente cerca de 50 milhões de jovens. Segundo dados do IBGE¹, o aumento da população nessa faixa etária começou no início da década de 2010 e terá seu auge em 2020. Isso pode ser uma grande oportunidade, mas ao mesmo tempo é um grande desafio, considerando que boa parte desses jovens tem baixo acesso à escolarização de qualidade, a oportunidades de trabalho e sofrem com as mazelas sociais, especialmente nos grandes centros urbanos, como Rio de Janeiro e São Paulo. 

Pesquisas recentes  apontam que 20% da população de jovens (ou seja, 10 milhões de jovens) não estudam e nem trabalham (nem nem); 30% não chegaram a completar o ensino fundamental e abandonaram a escola; 55% não concluíram o ensino médio. E quando recortamos a pesquisa e olhamos para os jovens de baixa renda, a situação é ainda mais crítica: 70 % dos jovens nem nem estão entre os 40% da população mais pobre do país, morando em domicílios com renda per capita de até meio salário mínimo. Outro dado alarmante é que de cada 10 pessoas de 15 a 29 anos que se encontram sem estudar e sem trabalhar, sete são mulheres. E que dentre estas, 58,4% têm um ou mais filhos, são adolescentes que tiveram filhos cedo e, por causa da maternidade, abandonaram os estudos e as possibilidades de trabalho. 

Uma pesquisa de 2006 conduzida pelo IBOPE com foco em jovens cariocas e sua confiança no futuro apontava alguns dados alarmantes: 48% deles acreditavam que o Rio de Janeiro caminhava para ser um lugar pior de se viver; quando perguntados sobre algumas previsões para 2020, os jovens endossavam a falta de confiança: 73% acham que haverá mais meninos de rua, 69% acreditam que a baía e as praias cariocas continuarão poluídas e 68% apostam que a violência aumentará. Na época, violência e desemprego foram citados como os dois problemas mais graves do país.

Reportagem do jornal “Estadão”, de 22 de janeiro de 2017, escrita pelo economista e ex-presidente do IPEA, Fernando Rezende, apontava que: “Não é a primeira vez que o Brasil enfrenta uma crise de grandes proporções como a deste momento. Mas é a primeira vez que se dissemina na sociedade brasileira uma sensação de crescente insegurança com respeito ao futuro e de desconfiança na capacidade do governo para liderar a saída da crise”.

E foi com esse foco que recentemente conduzimos no CIEDS mais uma pesquisa com participantes de nossos projetos. Dessa vez o foco foi os jovens e sua percepção de confiança no futuro. Os resultados são promissores. 

Responderam a pesquisa 203 jovens participantes de projetos e programas sociais implementados pelo CIEDS.  Ao serem perguntados se confiam num futuro melhor, 95% dos respondentes afirmou que confia, dado significativo demonstrando que os jovens acreditam que o futuro reserva melhores condições do que os dias atuais. Sabemos que acreditar que o amanhã será melhor que o hoje impacta nosso modo de viver atualmente. A confiança em um futuro melhor é significativa para a produção de sonhos e movimentos rumo a uma sociedade mais justa e mais democrática.

 

A segunda pergunta dessa edição do Quiz CIEDS teve foco em compreender o que apoiaria o jovem a confiar que o futuro pode ser melhor. As opções disponíveis eram: governo e empresas mais éticas; mudança no modo pelo qual a sociedade enxerga o jovem; mais oportunidades de formação e trabalho; melhor relacionamento com a família e amigos; e participação política e cidadã da sociedade.

 

Os resultados demonstram que para a ampliação da confiança no futuro é imprescindível políticas e programas que ampliem as oportunidades de formação e de trabalho para a juventude (26,6%). Além disso, o melhor relacionamento com a família e com os amigos e governos e empresas éticas e honestas aparecem logo na segunda posição em um empate técnico, mostrando que os jovens também buscam uma maior relação e confiança com as instituições. 

Os resultados da pesquisa nos permitem afirmar que é preciso romper o paradigma de que o jovem “não quer nada com a vida”. O jovem busca formação e trabalho, anseia empresas e governos éticos e transparentes, além de uma maior proximidade com a família. 

Ao olharmos exclusivamente para os jovens que responderam que não acreditam em um futuro melhor, o dado é ainda mais surpreendente. 60% destes responderam que para confiar que o futuro pode ser melhor o fator mais importante é o relacionamento com as famílias e amigos. Esse dado reforça a concepção da importância da família no processo de desenvolvimento integral do jovem, de formação de suas convicções e valores. 

A família é o núcleo primário de afetividade, acolhida, convívio, sociabilidade, autonomia, sustentabilidade e referência no processo de desenvolvimento e exercício da cidadania. Fortalecer a relação dos jovens com suas famílias é um desafio que precisa ser continuadamente enfrentado, considerando ainda os desafios que se inserem nessa relação: conflitos intergeracionais, famílias marcadas por diferentes contextos de vulnerabilidade, aumento da participação da mulher no mercado de trabalho, aumento do número de mães solteiras, dentre outros. 

A terceira pergunta do Quiz CIEDS trouxe à tona a questão do que o jovem pode fazer para construir um Brasil melhor para todos. Nessa questão, nosso foco foi fomentar o protagonismo do jovem na construção de uma sociedade melhor para todos e de que modo ele pode se engajar sendo um agente de mudança. 

 

Novamente restou evidente a preocupação do jovem com seus processos formativos (31% dos respondentes); na sequência aparece a participação política escolhendo governantes que representem os desejos e valores da juventude. 

O CIEDS entende e discute “juventude” a partir de referências conceituais contemporâneas, que consideram que dados biológicos, etários ou jurídicos, que são comumente utilizados para caracterizar esse segmento, não são suficientes para defini-lo. Consideramos que gênero, etnia, classe social, são alguns dos condicionantes que interferem na forma de ser jovem e geram desigualdades no usufruto dessa condição.

Juventude para o CIEDS compõe um universo de agentes transformadores, não somente pela passagem da vida infantil para a vida adulta, mas porque compõem um grupo etário em que sonhos são projetados e porque, em sua maioria, questionam a cultura social vigente.  

Para o CIEDS, pensar questões relacionadas à juventude entendendo sua articulação com as políticas públicas é fundamental para o êxito de ações voltadas para esse segmento.  Somente a partir da articulação de diversos saberes e olhares é que de fato poderemos construir estratégias efetivas para essa camada da população. Acreditamos em um futuro melhor e queremos que todos possam compartilhar conosco dessa crença. Juntos em redes para a prosperidade. 

Ao nos considerarmos também como agentes transformadores, entendemos que nosso papel institucional é integrar esforços e metodologias para gerar mais oportunidades, mais encontros, mais pontes e mais redes. Temos o dever de integrar em nossos projetos esporte com cultura, educação com saúde, sexualidade com cidadania, etc. Promover ações articuladas que garantam voz aos jovens e possam favorecer a compreensão da relevância das políticas públicas para a juventude, para o seu futuro e para o futuro de sua comunidade. 

Em outras palavras, é preciso investir e confiar continuadamente na juventude. Sair da retórica de que os jovens são o futuro da nação para construir políticas e projetos que possibilitem que de fato eles sejam o futuro do nosso país.

 

1. Síntese dos Indicadores Sociais, IBGE 2016

 

Fábio Müller 
Diretor Executivo do CIEDS
Doutorando em Ciências Politicas e Relações Internacionais

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